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Auto-retrato em Sangüínea e
Carvão
Antes de dominar a arte, tive que superar a técnica.
Está aí um princípio que serve para muitas coisas na vida. Por exemplo:
para deixar-se arrebatar pelas emoções, é preciso que se transcenda a
razão - como transcendi; para atingir o amor, é necessário que se cruze
o limiar da dor - como cruzei; e para alcançar a lucidez total é preciso
vencer todas as barreiras da memória e do esquecimento - como venci.
Mas não estou aqui para falar de conceitos. Tampouco para me prevalecer
ou me vangloriar. De fato, nem ao menos sou um artista conhecido. Não
sou, realmente, nada de mais. Porém, dada a natureza das circunstâncias,
só me resta contar-lhes essa história - a gênese de minha obra-prima,
que hoje realizei, depois de esboçá-la tantas vezes em sangüínea e
carvão. No centro dela, o homem ferido de morte, desprovido de sua
própria qualidade de homem. Um corpo encarnado e sujo, exausto de
sofrer. Não é uma peça de arte, apenas. É minha vida que está aqui,
diante de vocês.
Comecei a desenhar na clínica de reabilitação para doentes mentais, onde
vivi a maior parte de minha adolescência. As memórias e os motivos que
me haviam levado até lá eram desconhecidas para mim. Na maior parte do
tempo, sentia a cabeça leve e vazia. Deixava-me ficar, apenas, meneando
a cabeça e balançando o corpo para frente e para trás, sem vontade de
falar. Sem vontade de nada. Tudo o que lembro veio dos desenhos que fiz,
portanto não garanto a veracidade dos fatos. Ainda não sei se minha arte
imitou a vida ou se foi o contrário. Desconfio que ambas se encontram em
processo de retroalimentação constante, e já não interessa mais o que
seja verdade ou mentira. Sinto as cicatrizes e as chagas da vida e da
arte em minha pele, cobrindo-me de culpa. E se isso não é realidade o
suficiente, não sei o que seja.
De início eram rabiscos. Rabiscos vermelhos, raivosos, caóticos,
sobrepostos. Rabiscos sobre rabiscos, até que surgissem áreas chapadas
de vermelho vivo. Depois vieram as formas: vermelho pingando, vermelho
espirrando, vermelho jorrando, vermelho entornando, derramando-se pelo
chão. Então surgiram mãos vermelhas, feridas vermelhas e vermelho no fio
da faca segurada pelas mãos vermelhas. Não eram minhas, as mãos. Mas
aqueles cortes rasgavam-me também. Eu não conseguia fazer nada para
impedi-lo, nem ao menos perguntar porquê. "Porquê, papai? Porquê?" -
Gritava, então, diante do desenho. Como se daquela resposta dependesse
toda a minha vida. Berrava descontrolado, repetidamente, até que os
enfermeiros me imobilizassem e acalmassem com uma injeção de
tranqüilizante.
Logo aprendi a controlar-me, para manter o privilégio de freqüentar a
sala de ludoterapia, enquanto a maioria dos internos ocupava as tardes
assistindo tevê. Teria desenhado com meu próprio dedo se fosse
necessário, descarnando-o até a falange para que sangrasse do vermelho
do qual precisava. Mas bastou aparentar calma para que me deixassem ali,
esquecido, lutando contra as memórias que surgiam de meus traços. E foi
com um desenho atrás do outro que vi a cena mais nítida e clara, como se
saísse de um transe. Lá estava ele, matando-a com as próprias mãos.
Empunhando a faca que ela usava ao cozinhar para nós. Depois me beijara
a boca ofegante, horrorizada. Beijo de língua, como fazia sempre que ela
não estava em casa. "-Não fica assim, filhinho. Mamãe está descansando."
Seus olhos vidrados, me tomando de terror. E ele dizendo "-Não me olha
assim, meu filho!", diante dos meus olhos que não aceitavam suas
súplicas, diante dos quais ele voltou para si mesmo a faca que usara
contra ela.
Foi então que me internaram. E naquela clínica perdi uma parte de minha
vida, até completar meus dezenove anos. Depois, mudei-me para a casa de
meus avós maternos - a mesma velha casa na qual mamãe crescera - onde
fui recebido como o neto querido. O único sobrevivente, futuro daquela
família triste e destroçada. Empenhei-me em recuperar o tempo perdido,
tentando ignorar os fantasmas do passado, que todo o dia voltavam para
me visitar. Diante deles, não havia como fugir da vergonha, pois ela
estava dentro de mim. Impossível escapar daquelas fotos de mamãe nos
porta-retratos, de seu olhar inquisidor me perseguindo. O que me salvou
foi a terapia, combinada com o coquetel de medicamentos para depressão.
Continuei com minha vida. Matriculei-me em aulas de desenho, cursei o
supletivo e prestei o vestibular para artes plásticas. Por um tempo,
parecia reconciliado com todos os pesadelos do passado. Mas o tempo e a
prática foram acrescentando profundidade e força a meus desenhos,
trazendo memórias mais antigas. Mais obscuras e esfumadas. Uma infância
em sépia e carvão, com muita sombra e pouca luz: minha natureza morta. A
vida não era apenas vermelha de desespero, afinal. Tinha também a
tristeza do preto. Preto e sujo, como o galinheiro que ficava nos fundos
de nossa casa, onde papai me levava para brincar. Ele me fazia usar as
roupas de mamãe que secavam no varal. Depois me usava, como fazia com
ela. Quanta culpa, meu Deus! Quanta culpa carreguei por todos esses anos
por ter tomado o lugar que era de mamãe. Mas eu não queria. Foi ele, ele
quem pediu. Hoje, se me fosse dado escolher, ofertaria meu corpo ao
vermelho de sua faca, para que ela cortasse minha pele, atravessasse
minha carne, rompendo tendões, artéria, órgãos vitais - ainda assim eu
não sofreria como sofro agora, diante da lembrança do ocorrido.
Por toda a minha vida o remorso me corroeu o coração, enquanto os
desenhos se empilhavam em pastas, presos nas paredes, cobertos de um
verniz que impedia minha dor de se esvanecer. Como explicar uma dor tão
grande? Como sobreviver, preso a uma mente atormentada? Cercado pelos
gritos e sussurros de horror que saíam de meus desenhos? Andei por todos
esses anos sobre o fio da faca de papai. Sabia que a qualquer momento
cairia sobre ele, partindo meu corpo em dois. Viver seria a arte de
adiar o momento derradeiro, lutando contra o medo e esperando por ele.
E, na verdade, eu sabia que não havia mais o que temer. Nenhuma dor
física seria pior que a intensa tortura psíquica pela qual eu passava.
Houve épocas em que pensei que iria morrer. Em tempos piores, imaginei
que nunca morreria, por mais que sofresse. Por mais que estivesse sujo,
impuro e a dor fosse insuportável. Nesses momentos, tudo o que eu
precisava era de uma lâmina de barbear. Há sujeiras que não saem com
água e sabão, precisam ser raspadas do corpo com violência. Então eu
raspava e raspava até cansar de raspar. Depois usava o fio meio-cego
para fazer desenhos em minha pele, com muita calma para não cortar
fundo. Eram cortes tão finos que mal se podia ver. Eu tinha que abri-los
com os dedos, para ver o sangue brotar. Só então me sentia mais forte e
puro, guiado pela coragem, fazendo de meu talento para o desenho a minha
catarse. Ferindo minha pele, eu tinha o poder de trazer a dor do
espírito para o corpo. Como vocês me vêem fazendo agora.
Há dias estou trancado nesse estúdio cinzento e esfumaçado, acendendo um
cigarro no outro, bebendo tequila e tentando afastar as velhas dores uma
vez mais. Foi riscando distraidamente com um lápis de sanguínea que vi
surgir a imagem de minha mãe morta. Seus olhos acusadores me
perturbando, a voz me conduzindo. Tentei me desvencilhar deixando-a de
lado, como se ela não estivesse ali. Concentrei-me em meu auto-retrato
de corpo inteiro. Um novo esboço, antes de começar a obra final, que
seria a um tempo minha epifania e meu avatar. Diferente dos anteriores,
nele apareço nu, finalmente revelado. Eu, o homem ferido de morte,
desprovido de sua própria qualidade de homem. Um corpo encarnado e sujo,
exausto de sofrer.
De súbito, entendi. Os pensamentos impuros haviam voltado para ficar. A
voz furiosa de mamãe era a confirmação, acusando minha sujeira. Eu
precisava de um banho para me purificar. Precisava de uma gilete para
raspar de minha pele todo aquele pecado. Raspar, raspar, até ficar em
carne-viva. Até sertir-me vivo novamente. Queria trocar de couro, como
uma cobra. Depois rastejar pelo ralo até sumir no esgoto. E rápido.
Antes que papai voltasse. Daria tempo para fazer um daqueles desenhos
bonitos em minha pele? O que ele diria ao me ver assim, enfeitado? Será
que teria vontade de me tocar? Mas mamãe viria atrás. Viria para me
proteger? Ou para me punir? Eu poderia mostrar meus desenhos a ela e
dizer: "-Olha mamãe, todo meu sofrimento!". Eles chegariam. Sim,
chegariam. Eu precisava me apressar, ficar puro, como no desenho. Raspar
fora todo o pecado, tudo o que era sujo e mau. Então me enchi de uma
coragem da qual só os loucos são capazes. Peguei a navalha que estava na
pia - a mais afiada de todas- e cortei com ela membro e escroto, em um
gesto cirúrgico - decidido e preciso. Quando eles chegassem eu seria
novamente criança: nem homem nem mulher. Seria apenas eu. Apenas um anjo
aqui, diante de vocês.
Agora, com o sangue escorrendo por minhas pernas, fecho um ciclo, volto
ao início. Essa chaga, de onde ele nasce, é a fonte de meu sofrimento
que se esgota. Posiciono-me no centro do salão transformando em arte o
que a técnica fizera esboço. Deixo para vocês o meu corpo como herança,
eternizado pelo auto-retrato em sangüínea e carvão.
RUDIRAM MESSIAS é formado em Publicidade e Propaganda, tem um par
de óculos e uma mente complicada, decorrentes de leituras excessivas.
Hoje escreve para pessoas de alma despudorada, além de cursar a
Faculdade de Psicologia na PUCRS.
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