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Zé Caipora
Todo mundo em Vila Formosa sabia da fama do Zé Caipora. Festa onde ele
chegava, patuscada de viola ou até batizado de gente de cueiro, sempre
tinha um pé-de-vento, uma desgraça qualquer. Receber o Zé em casa era
ainda pior, dava doença, morte de parente ou briga de marido e mulher.
Às vezes, guampa e facada.
O Zé, coitado, bem que tentava desdizer a má fama, que isso era coisa de
gente que gostava de deitar falação à toa, pra desacreditar desafeto;
fuxico da Candinha; que ele era mais um caboclo de sorte. Mas qual o
quê! O apelido e a nomeada tinham grudado mais do que mel com farinha e
bastava o Zé anunciar uma visita pra algum conhecido que, justo no dia,
às vezes na horinha mesmo, o dito cujo se alembrava de um negócio, de
atender uma precisão ou fazer uma diligência lá pra bem longe. Do Zé,
bem entendido.
O curioso é que nem a mais tarimbada fofoqueira da vila sabia no certo
donde vinha essa carapuça do Zé. Uns comentavam que era por causa de uma
criança que tinha escapado pro Paraíso dois dias depois do Zé servir de
padrinho. Outros que os roçados da região se empraguejaram depois que o
Zé tinha arrematado o Sítio do Jaburu, uma paragem cheia de alma penada,
donde o Chico da Antonha viera meio abilolado, depois de uma noite em
que tinha ido fazer espera de anta.
Roncava-se à boca de cascudo que o azaramento do Zé, pelo jeito, só
fazia derribada pros outros, pois sua roça andava faceira, alourando os
campos de milho. Nas noites luadas, via-se o brilho gordo no pêlo das
vacas e das cabras, que mascavam sua fartura burguesa na tranqüilidade
da pastagem. A casinhola de madeira aonde o Zé vivia só mais o gato e o
papagaio, tinha sido pintada de fresco, a cerca melhorada com poste de
amendoim. Até a cara do Zé tinha levado uma espanada e na sua feição
meio chupada, se dependuravam agora uma pêra magricela e um bigode
idoso. A casimira da calça e do paletó eram novas, aviadas no armazém do
Tonho, que, mais ingrato do que leproso da Bíblia, espalhara que a
vendagem diminuíra depois da compra do Zé.
No começo de toda a falação, o Zé achava graça, fazia cara de momo perto
das crianças e de mulher barriguda. Mas, ao depois, quando até os amigos
de garfo e prato cheio torciam a cara e o pescoço ao passar por ele, o
Zé se queimou. De brincadeira a ofensa, a falação deu um revorteio lá na
cachola do Zé e ficou carcomendo, rezingando.
- Mas ô homi, ocê acredita memo numa besterada dessa, sô!?
Aqui o Migué Pé-de-Anjo fez uma cara desenxabida, deu uma risota
matusquela e não respondeu à direta do Zé. Ele e outros. Muitos outros.
Tinha gente que inté se benzia quando o Zé passava.
O Zé ia ficando cada dia mais enquizilado com essa história. Dez vez em
quando tinha uns estralos de raiva, xingava entre as janelas dos dentes.
- Raça mais besta!
- Povo de tapado!
- Mulambento!
- Esgrovinhado!
E nada do povo mudar as idéias. A falação sempre forte e as esquivanças
aumentando. Convite pra rega-bofe nem isca. Até a Joaninha da farmácia,
que tava de beiço pelo Zé, acabou desistindo de um amor tão arriado de
fortuna.
O Zé foi levando, agüentando, rezingando, sofrendo, xingando. Até que
estourou.
Foi na noite de São João, quando o povo lustrava a botina, arrotava
caninha e esquecia das vacas. O Zé perambulava pela praça, vendo a
quadrilha pipocar, numa confusão de saias rodadas e fole de sanfonas.
Sozinho, o Zé lembrava, cheio de um despeitamento doído, do tempo bom em
que a conversa vinha orvalhada de aguardente, de causos, de amizade.
Atirou os olhos de enjeitado pros lados do Boteco do Mineiro, onde os
conhecidos e os desconhecidos, aquela malta de línguas trançadas, vez em
quando, davam à taramela olhando pro Zé. "Apois, é hoje!", decidiu o Zé,
ajeitando a cinta das calças e batendo com o tacão da botina no rumo do
boteco. Tinha que acabar com essa bestage de caiporismo, de mau-olhado.
A freguesia olhou desconfiada pro Zé, com seu chapéu de aba larga e seu
paletó de tergal inglês, mas ninguém falou nada quando ele pisou no
batente e foi direto pro balcão, parando ao lado do lampião de
querosene. Pediu uma pinga pra matar o bicho. O Mineiro encheu o copo.
Bebendo tudo de um trago só, o Zé deu um ah! chiado e comprido, de quem
acaba de curar a alma. Mandou encher o caneco de novo e só então lembrou
do santo, deitando um gole pras bebedeiras no céu. Se virando pra trás,
com a caninha na mão, o Zé deu uma vista de olhos nos antigos convivas e
pigarreou alto, a modo de testação. Silêncio. A cachaça e os beiços
colados deram ânimo:
- Minha gente, eu queria falá de uns comentário que todo mundo aqui já
deve de tá sabendo, mas que percisa pará, pra modo de não trazê ainda
mais probema.
O silêncio continuou dentro do boteco. Até as gargantas mais secas
pararam com a regação. Vendo que ninguém se encrespava, o Zé decidiu
continuar a arenga que já tinha ensaiado um monte de vezes. Mas não teve
tempo.
Um buscapé fugiu, feliz, da mão de um moleque na praça e entrou
ciscando, endoideceido, pela porta do boteco, derrubando copos, garrafas
e fazendo os pés dançarem um cateretê louco debaixo das mesas. O Zé, que
se arrepelava de medo do diabinho de fogo, deu um pulo pra trás,
derramando a pinga do copo em cima do lampião. O bicho, aproveitando o
São João, explodiu, jogando fogo na cachaça derramada no balcão e na
palha de pitar do Mineiro. A freguesia, vendo o fogo crescer e o buscapé
desembestar, saiu em debandada pela porta da venda, pisoteando uma velha
que passava, arriada na bengala de jacarandá.
Os cavalos, acorreados no amarrador, ao notarem o rebuliço, se
assustaram e, dando de pinote, quebraram as correias, saindo em
disparada pela praça, pisoteando o padre, que olhava tão entretido a
barraca de doces que não deu pela cavalhada.
O povo da praça começou a gritar e correr, dando umbigada num, cabeçada
noutro, canelada em tresoutro. O inspetor, ouriçado com a barulheira,
achou que era coisa de salteador e deu dois tiros com a garrucha na
direção do tropel.
Quando a poeira assentou, descobriu-se que o Boteco do Mineiro tinha
virado carvão, a velha tinha tido um colapso, o padre quebrara a
clavícula e um tropeiro morreu chumbado. Só não houve também linchamento
porque o Zé nunca mais apareceu em Vila Formosa.
ELIAS DOS SANTOS SILVA é campograndense há 34 anos e, desde a
infância, insiste em escrever platitudes verborrágicas e outras asnices,
para desgosto dos quatro ou cinco gatos pingados que o lêem. Radialista
e jornalista, colaborou (ou prejudicou, ainda não sabe ao certo) em
vários veículos de comunicação da capital de MS, tais como Rádio
Cultura, FM Canarinho, FM Cidade, assim como nos jornais Diário da Serra
(já extinto, embora a culpabilidade do autor aqui enfocado não tenha
sido comprovada) e O Progresso (Dourados-MS).
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