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Uma saga ainda sem nome
AQUI JAZ JOSÉ MARIA
CAPELA,
O CAPELINHA
Nascido em 21.03.2002
Morto em 21.03.2002
BOM FILHO BOM MARIDO BOM PAI
(MESMO SEM NUNCA TER TIDO MÃE, MULHER, FILHOS)
do burrinho
‘Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo,
Conceição do Serro, ou não sei onde no sertão. Chamava-se Sete-de-Ouros,
e já fora tão bom, como outro não existiu e nem pode haver igual.’
do coro
Numa manhã de sol e aromas, depois da noite, o beijo. Numa manhã de sol
e aromas, depois da morte, o beijo. Numa manhã de sol e aromas, depois
do beijo, a morte. Numa manhã de sol e aromas, depois da morte, a noite.
Numa manhã de beijos e morte, depois do sol, o aroma. Numa manhã depois
do sol da noite, aromas e a morte. Numa manhã depois do sol da morte,
noite e aromas. Numa manhã depois da morte do aroma da noite, o beijo.
Numa manhã depois do aroma da morte da noite do beijo. Numa manhã depois
da morte do sol da noite do beijo, o aroma. Numa noite de sol, aromas do
beijo da morte. Numa noite de sol, aromas da morte do beijo. Numa noite
de sol e aromas, depois do beijo, amanhã.
do burrinho outra vez
‘Era um burrinho pedrês, miúdo e resignado, vindo de lá de não sei onde,
no sertão...’
do José Maria Capela, o Capelinha
Sujeito arretado o Capelinha. Bebia muito. Água-benta, água boa de
briga. Amansa corno. Meu consolo. Rebenta peito bravo, gato rodopia que
mata o bicho e quebra a goela e engasga dengosa, lindinha, sinhazinha,
danada e mesmo teimosa, daquelas marvada da peste, aquela a esquentar
osso duro de gelo, ócio de sete virtudes, bem cobra criada que toma
juízo, aguardente de cana de dita cachaça. Roubava cemitério à noite,
enchia o pote nas tardes de domingo, não tinha jeito o Capelinha. As
tumbas hoje vazias, nosso chão rubro exala enxofre em toda qualquer
esquina. Miseráveis bastardos a vagar pelas grandes cidades, sangue,
carne, secreções, cães vadios, moleques a se alimentar do meu crânio
este, serve de taça e às almas mortais nenhum desafio, desatino,
desatinado ele, ou nós?, não!, eles: sucumbiram; é o que diz todo xamã,
velho desde o primeiro choro no mundo – se bem, por aí falam aos cantos,
xamã xamã nasce sem choro, nasce sem berro, era um burrinho pedrês,
miúdo e resignado, vindo gigante, ou não sei como no passamento das
idéias, feito de pedra, chamava-se pelo numinoso nome, o menuminosono
menume nosono, e já fora de tudo em passadas, sete vezes setenta, já
fora feito até mesmo de ouro, mas como outro também não existiu, não
existe, como todos e, por isso talvez, nem igual pode haver.
do espantalho
Tinha um espantalho, de aparência própria a sua mesma, diziam ser o
Capelinha a cópia em estágio desolado do punhado de retalhos e palhas de
nome nosonomenume espantalho.
da cachaça Nossa
E a porra da música que não saía da cabeça do nosso herói. Já tinha
tragado os tantos goles, a garganta intumescida pelo vapor e nenhuma
lembrança do absinto posto que era cachaça o que ele sorvia alma
adentro. Mas a qual alma o desalmado filho-de-uma-égua do nosso herói
passava tamanha responsabilidade de sorver tal lubrificante néctar da
nossa entre aspas devem cercar esse nossa da nossa terra então nossa,
Nossa, nem nossa, nostra roça nostra fossa.
das idéias e das alucinações
Das suas idéias e alucinações, sobre as alucinações falarei mais
tarde, no tardar das minhas mesmas, por ora fiquemos com as idéias, tão
quanto, e sobre o futuro em cores: o futuro em cores tornou-se presente,
e o presente em cores tornou-se cachaça, não – cachaça não – tornou-se e
sim passado recente... reticente, reincidente. Foto grafias, filmes e
livros de estória. O quê o Capelinha conta? Até algumas décadas atrás –
aos berros, não, o Capelinha não é um xamã, o Capelinha chorou ao
nascer, não teve epifania alguma senão uma sutil comoção e espasmo da
sua, e da nossa, miséria – continuou o discurso, o mundo era preto e
branco, porque suas primeiras impressões do mundo vinham da tevê, a
velha tevê que ficava na sala, da sala pequenina da casa em que ele
passou os primeiros anos, dos quais já há muito não se recorda, talvez,
apenas, da tevê, a velha tevê que ficava na sala, ou não, ou não, não
era realmente preto e branco o mundo, mas víamos o passado cada vez mais
distante em preto e branco, e alguém o mandou calar-se, o que nos
acontecerá a todos, gente, neste mundo cinzento, quando o enxergarmos
cinzento? o que nos acontecerá se, algum dia, este mundo cinzento
tornar-se realmente preto e branco? o que nos acontecerá se, distante
algum dia, neste mundo enxergarmos as suas cores em verdade? em verdade
caiu duro o corpo no chão, para logo em seguida vir cair ao seu lado o
espírito, e depois o espectro daquilo que um dia teria sido o Capelinha,
mas o pior veio por último, o mais leve peso de todo aquele conjunto de
uma única coisa só, o copo, e o copo se espatifou no chão, e um dos
cacos foi direto de encontro à jugular do primeiro a cair, o corpo,
sangue a jorrar, secreções, cães vadios, moleques a jogar bola do outro
lado da rua com a cabeça do espantalho e o burrinho resignado catava
restos de alimento no meio-fio.
do burrinho pela terceira vez, dos fatos e de Maria José da Conceição,
que não faz parte desta estória
Mas não foi desta feita que o nosso herói foi desta para um mundo
melhor. Largado num mundo póstumo, como nós, o desencantador de pedras
ou mitos resistiu, no transe contou ao Deus/Diabo a estória verídica do
Andrógino Primordial re/construído e a concreção sígnica da poesia e o
seu poder de encantamento. Até aí não sabemos ao certo se tal estória
era idéia sua ou se era alucinação, ou se tudo aqui narrado idéia ou
alucinação do Capelinha ou mesmo do autor-narrador é. Ao certo mesmo era
um burrinho pedrês, miúdo e resignado, que não existiu como o outro, só
como passamento de Conceição, que não faz parte desta estória, e o fluxo
orgânico das coisas e o sentimento, saudades do bom e velho burrinho
pedrês, miúdo e resignado, que não existiu.
RODRIGO NOVAES DE ALMEIDA nasceu no rio de janeiro, dia 3 de maio
de 1976. cursou as faculdades de filosofia (UFRJ) e comunicação (FACHA).
além de escritor e poeta, Rodrigo é também artista plástico.
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