Tio Sam e o Homem-Bala

Eu, um ótimo anfitrião, recebia a todos os fantasiados que coloriam meu salão. Super-heróis se encontravam com personagens de Lewis Carrol e Guerra nas Estrelas. Eu, Tio Sam, me ocupava abrindo a porta e recebendo mais personagens. Corria de um lado para outro, “se vocês quiserem, tem mais na geladeira”. Risadas fáceis e piadas babacas para diminuir o estranhamento de ver seus convidados ridiculamente trajados.

Abro a porta e só não me assusto porque, ora bolas, é uma festa à fantasia. Gordo, gigante. Debaixo daquela banha toda, pezinhos muito pequenos. Um capacete branco, uma malha branca e azul dividia as gorduras da barriga. Era o Homem-Bala e veio sozinho, tímido, gordo e desajeitado. Nunca vi esse cara antes.

Sorri e abri mais a porta, liberando espaço para o Homem-Bala arrastar suas toneladas pela entrada até o salão. Quando passou por mim, vi os pêlos de suas costas que saltavam pela malha, na altura do pescoço. Suas mãozinhas pequenas, não sabia onde as colocar – a malha não tinha bolsos. Olhava tímido e bufava. Dentre tantos ridículos, era apenas mais um. “Ele não tem muita vida social”, pensei.

Fechei a porta e vi o Homem-Bala arrastando-se com dificuldade pelo salão, indo em direção à salinha anexa. O síndico proibia a entrada de estranhos na salinha. Me apresso para tentar segurá-lo, mas vejo-o sumindo à direita. Entrou na sala.

Ele, parado e fitando a porta, parecia saber que eu vinha atrás. “Desculpe, você não pode ficar aqui”, é o que eu teria dito, se não tivesse me sentido estupidamente atraído por aquele monstro branco, cujos braços eram arqueados pelas banhas do corpanzil. Fechei a porta e me aproximei. Abri as calças e empinei a bunda. “Vem”.

Enquanto a minha cara estava a alguns poucos centímetros da porta, minhas mãos abriam minha pequena e branca bunda. Queria o monstro todo dentro de mim, sabia que ia doer. Senti suas mãozinhas – senti-as engorduradas – nas minhas costas, tentava enfiar seu, imagino eu, pequeno pauzinho em mim. Não sei quem ele era, mas acho que isso pouco importa, numa festa e numa fantasia.