 |
 |
Reencontro
Freia com violência o carro. Não escuta o ódio dos outros motoristas
porque o corpo todo olha para acreditar. Entre os canteiros de
maria-sem-vergonha, reconhece Letícia e sua sombrinha usada em dias de
muito sol. A mesma Letícia que bordava o enxoval em ponto cruz. Que
escrevia cartas com juras de felicidade, poemas dedicados e pedidos de
corte de seda. Que enjoava com cheiro de leite e não conhecia nada além
do portão caiado de azul da chácara São Jorge.
Na manhã clarinha nascida para o casamento, a mãe de Letícia avisou. A
filha teve febre alta, delírios. As mulheres correram com bacias e panos
quentes. Antes de entrar já choravam. Letícia morreu no sono, sorrindo.
Vestida de noiva e adornada com as flores dos arranjos de mesa da festa,
Letícia foi velada sem choro. Iria virar santa, o povo tinha certeza.
Passado cinco anos, Letícia faz milagres e seu túmulo tem vigílias e
procissões. Rubens, o então noivo já não odeia Deus. Está na cidade para
comprar alianças. Enxerga Letícia e sem uma palavra entende tudo. A
atropela sem dor na consciência. Ninguém morre duas vezes.
|