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Paixão aos domingos
Para Lóris, um homem às vésperas da meia-idade, não havia nada como uma
manhã de domingo. A temperatura de meia-estação, os tons brancos dos
edifícios brilhando contra a claridade, as ruas vazias e agora bastante
simpáticas, livres do congestionado trânsito da semana. O quase total
silêncio fazia com que a cidade parecesse não existir. Nos parques, uma
esparsa multidão caminhava em meio ao cálido sol matinal e a copa das
árvores mais altas. Em algum outro lugar da cidade, em meio a todo esse
clima de preguiça, um casal descansava sossegado, sem ligar para as
horas, distraídos com o jornal do dia, torradas, geléia, e também o
cheiro forte de café. As manhãs de domingo vinham se arrastando sempre
assim, indefinidamente, até a hora do almoço.
Naquele domingo, eles almoçaram em um restaurante italiano perto do
centro, e Lóris sentia que passara um pouco da conta. Havia comido massa
demais, e havia pedido também uma taça de vinho a mais. Mas isso acabava
acontecendo sempre que almoçavam lá. Sentia-se pesado, sonolento, mas
mesmo assim quis convidá-la para um passeio até a zona sul da cidade.
Pediu café para compensar a taça de vinho.
- Acho que foi um pouco demais, não foi? - falou ela com simpatia.
- Não - disse ele - uma taça não faz diferença. Só um cafezinho enquanto
a gente espera a conta e eu estou novo em folha.
- Sei - ela sorria e acompanhava com curiosidade a sua tentativa de
recuperar um pouco da sobriedade perdida.
Lá fora, a temperatura era agradável, apesar de tornar-se um pouco frio
quando o vento vindo do sul os atingia em cheio enquanto caminhavam do
restaurante até onde o carro estava estacionado. Denise era magra, tinha
cabelos negros lisos e longos, uma aparência saudável. Era musculosa,
mas esguia, e seus músculos não eram inchados por causa disso.
Quer dizer, não eram músculos quadrados e que se parecessem com sacos de
batata amassados, mas eram longilíneos, suaves, bem desenhados. Vestia
casaco preto sobre uma blusa amarela, o que combinava plenamente com a
cor dos seus olhos.
Lóris tomou o caminho natural para se ir até a zona sul, entrando na
avenida Beira-rio desde o centro da cidade e percorrendo o caminho
costeando as margens do Guaíba, apreciando toda a beleza do rio
refletindo o azul do céu. Enquanto dirigia sem pressa em direção ao rio
e àquele clima lânguido e permanente de balneário do lado sul, os dois
absortos em si mesmos, olhando as pessoas nas ruas, eles pareciam não
sentir a menor necessidade de conversar, como se já se conhecessem há
muitos e muitos anos. Às vezes ele se virava enquanto dirigia e eles se
olhavam por alguns instantes, esboçavam algum sorriso com timidez e logo
voltavam a cair naquela espécie de transe silencioso.
- Tudo bem – perguntou Lóris.
- Tudo.
- Eu queria te dizer uma coisa.
- E o que é?
- Sabe – disse ele - as vezes me parece tão sinistro que a gente fique
tanto tempo juntos e não troque palavra nenhuma.
- Isso preocupa você? – perguntou ela.
- Preocupa – falou ele.
- Me conta então alguma coisa.
Loris falou o que lhe veio na cabeça.
- Hoje está fazendo dois meses que nós nos conhecemos – ele sentiu-se
ridículo ao dizer aquilo pois, presumiu, lembrar de datas são
prerrogativas femininas. Ela sorriu:
- Eu achei que você não ia lembrar de nada.
- Pois eu acho que você é que não lembra.
- Ora, ora, é claro que eu lembro - o sorriso dela deixava entrever que
apreciava a dúvida, tratando de mantê-la acesa.
Lóris considerava-se feliz por tê-la encontrado. Sua necessidade de
manter contato com mulheres mais meigas, sobretudo com mulheres mais
belas, era algo que o vinha atormentando há anos. Pensou em todas as
concessões que havia feito todo esse tempo. Depois, ligou o rádio. A
música intensificou o seu desejo, como sempre acontecia, e Lóris
surpreendeu-se lembrando de quando a conhecera, como se uma onda de
nostalgia se movesse sem direção em seus pensamentos. Podia lembrar-se
ainda com perfeição da primeira vez que a vira, sentada junto a mureta
do bar, a forte impressão que lhe causara. Lembrava também do vinho que
depois beberam, da música ao vivo, da penumbra do palco e de todo
ambiente. Lembrava-se das baladas tocadas em ritmo de bossa nova, e
também do formato enorme dos seios dentro do sutiã que ela deixava
entrever. Mas por mais que se esforçasse, não conseguia lembrar-se das
coisas que haviam conversado naquela noite. Agora, dois meses após se
conhecerem, era como se nada, à exceção do sexo, é claro, fosse mesmo
importante, como se nada que pudessem dizer ou deixar de dizer fosse
fazer qualquer diferença, e a impressão que ficava é que, fosse o que
quer que ele dissesse, ela sempre era capaz de fazer qualquer
comentário, trocar algumas frases com ele. Lóris pensava nisso enquanto
uma fileira de carros com outros tantos casais como eles esperava o
sinal verde das sinaleiras para prosseguir em direção ao idílio da zona
sul. Virou-se de novo para apreciá-la, e ela agora espreguiçava-se,
esticando os braços por trás do encosto da cabeça, o corte do vestido a
exibir o formato das pernas. Seguiram o serpentear do fluxo entorpecido
pelo silêncio do domingo, ainda sem sobressaltos, até que a postura
dela, antes quieta, e aos poucos mais lasciva, ameaçava liberar a febre
que teimava escapar de seu corpo, caindo-lhe do colo como se fossem
grossas ondas em atropelo.
De chofre, a apreensão que escapava aos olhos vinha molhar os fios já
úmidos pela tensão, era assim que a desordem começava, a atmosfera
sensível de primavera beirando a inquietude, até estar inteiramente
perdida. E isto era apenas uma pequena parte do delírio, pois quando
suas pupilas se dilatavam, ninguém sabia ser tão impiedosa quanto ela. E
a trama conspícua se encarregava de levantar o propósito certo,
incorporando àquela fêmea o véu da trapaça que eles tramavam, o enlace
deixando entrever o pretexto, forjando o suor caudaloso que respingava,
e ele podia ver o sinuoso encanto que a submetia. E era só quando ele,
tímido por ainda desacostumado, passava a cumprir-lhe as ordens, que
eram para que tomasse o comando e passasse ele mesmo a dar-lhe as
ordens, que ela expirava o íncubo que transformava: “é bom fudê
contigo”. Era na origem desse fascínio que ela dizia as coisas mais
íntimas e obscenas possíveis, oscilando com graça entre a luz e a
sombra, como se apenas o sexo que faziam pudesse realmente impor a ,
como se nada mais pudesse ser dito, o ato como uma simples e inevitável
conjunção carnal. Era como uma espécie de exaltação de sua
masculinidade, uma confissão de submissão que o aprisionava enquanto ele
fodia com ela. Fudê! Era como se essa palavra, pronunciada por ela
durante o intercurso sexual, adquirisse um tom emocional tão forte que
ele se sentia capaz de sentir amor por ela de uma maneira completamente
nova e espontânea, como se aquelas palavras ditas enquanto ela cedia
fossem capazes de transcender aquele tom de selvageria que o sexo cru
pode proporcionar a dois amantes, transportá-los para uma zona de paixão
carnal para além de tudo que ele já conhecia. Era como se, apenas por
ela dizer isso assim, de uma maneira tão singela enquanto eles faziam
sexo, ele pudesse libertar-se de toda aquela pressão de ter de parecer
terno para apenas foder como se isso fora um ato de suprema pureza, uma
doce dissolução da sua própria personalidade na dela. Afinal, talvez
eles acabassem se entendendo e se conhecendo melhor enquanto iam fazendo
sexo, ou talvez já se conhecessem e se entendessem tão bem que falar
sobre qualquer outra coisa não fosse de fato necessário. E era assim
mesmo, ele ficando extasiado ao pensar na libertação que aquela mulher
era capaz de propiciar quando começava a perder o controle sobre si
mesma, sussurrar coisas em seu ouvido.
Ao abandonarem outra vez aquela obscura zona de intimidade, despidos do
fluído generoso do gás que inflamava, já saciados das inúmeras vozes do
fim-de-semana, o sol já iniciara sua trajetória descendente em direção
ao horizonte. Ao chegarem na praia, caminharam pela orla e depois
sentaram-se na areia a apreciar o lindo espetáculo que era o final de
tarde à beira do rio, com sua luminosidade suave e decrescente.
- A gente se vê na próxima semana - perguntou ele.
- Não sei.
- Algum problema, Deni?
- Nenhum.
- Quer me dizer alguma coisa?
- Não – respondeu ela.
- Mas então em que você tá pensando?
- Nada de especial.
- Se é importante me diz.
- Acho que não é importante.
- Não quer mesmo me dizer – insistiu ele.
- Podemos tomar um café – pediu ela.
Eles foram em silêncio até o terraço que ficava a meia quadra dali.
Dois meses após conhecerem-se, era a primeira vez que ela parecia
contrariada. Ele estava satisfeito com aquele clima permanente de
romance de fim-de-semana que os unia mas, de algum modo, sabia que as
coisas não poderiam permanecer assim para sempre. Sentia-se feliz por
levar uma vida tranqüila durante a semana, vivendo apenas para o
trabalho e, desde que a havia conhecido, namorando com ela aos
finais-de-semana.
Lóris ainda queria sua vida tranqüila. Não que a vida não fosse
aprazível na companhia de outras pessoas. Todas essas coisas de que
todos gostam, conversar, beber, rir, coisas realmente importantes e
muito divertidas. E mais todo o prazer que a beleza de uma mulher pode
dar a um homem, mesmo a sua simples presença silenciosa. Mas talvez
fosse melhor que as coisas permanecessem assim mesmo, que os dias
guardassem uma sadia e bem apropriada distância uns dos outros. Afinal,
haveria sempre um grande vazio entre eles a ser preenchido. Lentamente
preenchido. E haveria ainda saudades, recordações, tempo para se pensar
na vida. E haveria sempre um enorme rio banhando a cidade, esperando por
eles a cada domingo. E haveria também o aroma de café naquelas manhãs
preguiçosas de domingo no pequeno apartamento dela, enquanto ela
circulava sonolenta e com os cabelos soltos dentro do seu incomparável
chambre branco depois que eles faziam sexo. Apenas isso, café e depois
sexo, pura e simplesmente sexo.
Ao adentrar o pátio do terraço, Lóris foi invadido pelo cheiro
penetrante que exalava lá de dentro. O cheiro de café intensificava o
seu romantismo, ou a sua carência, que era sempre latente. Ao sentarem
no pátio, Lóris esmerou-se na intenção de ler a carta do céu, observando
o movimento das estrelas e da lua que agia sobre eles, iluminando a
passagem da estação enquanto ele tentava envolvê-la com o denso
simbolismo da noite que caía.
- Paixão – falou ele – e o mesmo para a dama.
A garçonete tomou o pedido e piscou para ela antes de sair. Denise não
respondeu. Permaneceu em silêncio.
- Me fala logo o tem de ser dito – disse Lóris. Sabia que havia uma
dúvida a ser respondida, pairando no ar. Por alguma razão, sentia que
estavam rompendo algum limiar, prestes a restabelecer contato.
- Você sabe o que é – falou ela, por fim.
- Não sei de nada.
- Sabe sim, eu sei.
- Você sempre diz essas coisas.
Ela voltou a ficar em silêncio. Ele continuou.
- Ora, ora, vamos lá. Me diz logo o que você tem pra me dizer.
Ela tomou o resto do café.
- É o meu marido.
- E o que tem ele?
- Estou voltando pra ele.
- Sei – disse Lóris, secamente. Olhou-a bem nos olhos, e a seguir
perguntou:
- Quando foi isso?
- Isso não faz diferença – respondeu ela – Agora me sinto muito cansada.
Será que podemos ir?
A noite caíra por inteiro enquanto ele dirigia de volta. Sua imaginação
parecia adormecida, e eles permaneceram em completo silêncio, outra vez.
A empatia mais profunda que havia enxergado entre eles, a afinidade
emocional que lhe permitia ver nela os seus próprios sentimentos
refletidos, parecia-lhe agora um produto de sua própria credulidade, que
era de outra espécie. Ele não resistiu a dúvida:
- O quê houve, Deni? Eu fiz alguma coisa que não devia? Ou será que foi
alguma coisa que eu disse?
Ela virou-se para ele. Olhou-o bem nos olhos, mas não disse nada.
- Não vai mesmo me dizer?
- Você não disse nada de errado. Nem fez nada também, pode ficar
tranqüilo.
- Então, porquê?
Ela sentia dificuldade em explicar a ele, mas tampouco fez força para
arrumar uma boa razão qualquer. Chegaram no prédio dela, e Lóris estava
sombrio demais. Desde que o processo se instalara, meia-hora antes,
temia que a obsessão traísse algum desespero. Mas antes que pudesse
alegar um motivo qualquer, ela veio de encontro a ele e beijou-o.
Novamente, ele não evitou a pergunta.
- A gente se vê no próximo fim-de-semana.
- Você sabe, Lóris.
- Você vai estar aí no sábado? – insistiu ele.
Ela beijou os dois dedos da mão e levou-os até a boca dele. Depois
desembarcou, voltando-se em seguida para o lado do prédio de
apartamentos. Ele admirou a beleza da silhueta dela na penumbra enquanto
atravessava os poucos metros de jardim que separavam a calçada da rua da
porta do prédio. Uma beleza terrível. Logo ela entrou e desapareceu
atrás da porta lá dentro. Ele ligou o carro. Solitário, dirigindo à
noite por entre as ruas abandonadas da cidade, Lóris percebeu que fora
tudo bem simples. Simples demais. Desde o início, a mulher fora só um
enigma, e ele havia comprado tudo que podia. Percebeu, confuso, que a
beleza era um prato assustador, capaz de obscurecer todos os outros. Ao
estacionar em casa, percebeu também que a noite não era apenas o escuro
lá fora. Pensou mais uma vez nisso antes de entrar e fechar a porta de
casa naquela noite de domingo.
RICARDO POPIEN é porto-alegrense, da fornada de 63. Formado em
economia, percorreu outros sítios distantes mas voltou foi pra terrinha.
Aluno da oficina literária do Assis Brasil, participou da antologia de
contos de oficina 28.
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