O leito de morte

Estava a esperar o padre para dar a extrema-unção ao pai moribundo. Ele e o homem deitado no leito de um hospital, corroído pelo câncer. A luta chega ao final, então. Nada mais a fazer. Ao não ser esperar com paciência a chegada sombria da Morte. Ela sempre vem. O velho com 72 anos se encontrava irreconhecível ao filho que o vira nos tempos áureos. Era esbelto e quase um esportista, apesar de fumar e beber em demasia. Nadava muito bem. Corria. Jogava futebol. Agora era um ser carcomido pela doença. Um triste e esquálido esqueleto.

O padre não chegava. Tardava. "Daqui a pouco não dá mais tempo!" pensou, o filho. Considerava uma grande besteira essa do pai, de pedir pela extrema-unção. Nunca foi um grande católico, o velho. Homem de muitas amantes, boêmio inveterado. Não ia à igreja aos domingos e agora vinha com essa de padre, de perdão. Seus pecados não iam ser perdoados assim, tão facilmente, achava o filho. Os de ninguém são.

Ao olhar a triste figura do pai, o homem procura em sua memória, as lembranças de quem realmente fora aquele ser. Lembrou de quando pequeno, o pai levava ele para o carnaval. O pai a segurar pelo pescoço, percorria toda a avenida momesca com o menino no ombro. Gostava daqueles carnavais. Relembrou também das surras homéricas que o pai aplicava nele e em sua mãe. Sempre que bebia demais, e não eram poucas vezes, "a madeira deitava". Pobre mãe! Morrera a cinco anos atrás. Deveria estar no céu agora, era um anjo. Já o pai não sabia se teria a mesma sorte.

Seis horas, apontava o relógio. Foi a janela do quarto para ver o dia findo. "Esse padre não vem?". Quando chegou a janela pode vê, no jardim do hospital, uma pequena e apetitosa enfermeira empurrando a cadeira de rodas de um paciente. Bela mulher, um pitelzinho. Pele de morena bronzeada, pernas grossas, bundinha saliente e arrebitada. Muito gostosinha naquele uniforme branco das enfermeiras... o pai gemeu... voltou-se para ele para ver se pedia algo.

O pai a muito esforço perguntava pela peste do padre. Tentou falar suavemente com ele e explicar que o sacristão ainda não havia chegado. O doente murmurou qualquer coisa incompreensível. Voltou a janela para observar novamente a saborosa enfermeira. Não estava. "Uma pena!". Sentou na cadeira de frente ao leito sepulcral. Queria fumar, mas não podia. Mas que mal faria ao pai em dar uma tragadinha? O velho ia empacotar de qualquer jeito. Acabou por não acender o cigarro. Por um instante, pensou em desligar os aparelhos que sustentavam a precária existência do enfermo...por um segundo, quem sabe... decidiu afastar a idéia a baforadas. Acendeu o cigarro. Virou o rosto e os pensamentos para janela.

Sua esposa não quisera vir. Ficara em casa preparando as coisas para o enterro. Coisa estranha era aquela. Já planejava o caixão do defunto, antes do morto "defuntar" de fato. De qualquer forma os preparativos estavam todos quase prontos. O local do velório e a lápide, a cova e o coveiro, o café, os bolinhos e os convidados. Quase tudo pronto. Só faltava comprar o caixão. Ela mesmo quisera escolher, como se fosse um último favor a seu pai. Compraria um tipo que lembrasse austeridade. Um caixão negro, seria sua provável escolha. Bonito! Pensou novamente. O velho solta seus últimos gemidos. Câncer de pulmão. Os cigarros, a bebida e a mulheres comeram toda a saúde dele. Sentou-se na poltrona, ao lado do pai.

Não verteu uma única lágrima em todo processo de agonia que veio ser o tratamento de seu pai, desde a descoberta do tumor. Foram sete meses. Quando soube da doença, nada podia se fazer. O velho estava condenado. Não sofreu a dor do velho. Não quis compartilhar o sofrimento. Pagou o tratamento possível com absoluta indiferença, como se tivesse a fazer compras nos supermercados. O pai também não chorou. Nem mesmo nos momento de maior estertor. Era um homem valente, se bem que não foi a valentia a razão de tanta força. O velho estava resignado. Não podia espernear, nem gritar. Aceitou a morte, com serenidade de um vencido. Um belo perdedor.

Seis e meia. E o padre não vinha. Estava o dia todo naquele quarto. Era quinta-feira. Tinha faltado o trabalho. O chefe o havia liberado para estar presente quando o pai fizesse a "grande viagem". O último pedido do velho era o chamado do bendito sacristão. Engraçado, lembrava do horror que o doente tinha a eclésia. A iminência da morte muda as pessoas. Ouvia-se ao longe uma triste música instrumental vindo do corredor. Com certeza, era o rádio ligado da recepcionista. Depois, soube que a música se chamava Passeio da Boa Vista*, bonito tema de morte. Foi a janela de novo para ver se via a enfermeira. Não a viu.

Começou a andar impaciente pelo quarto, ignorando a presença do paciente terminal. Esta morte do velho iria custar caro. Fora a conta do hospital, tinha o enterro, as despesas com velório. Tinha que comprar a merda das flores. E depois vinha a missa de sétimo dia. A igreja lhe aplicaria outra facada. "Não se pode cair morto, hoje em dia". Naqueles últimos cinco anos, logo após a morte da mãe, o velho vinha causando muitos prejuízos. Os custos dos asilo eram para ele absurdos. Mas, era melhor do que ter o velho em casa. A mulher não suportava a presença do sogro. Os dois se detestavam. Ele não sabia ao certo a razão de tanta discórdia. Ao pensar nisso agora, passou pela sua cabeça a indagação do porque da esposa fazer questão de escolher o caixão do velho. Humor mórbido. Talvez fosse divertimento para ela preparar o enterro de alguém que ela tanta odiava. Mas porque ela o odiava tanto? Quem sabe por ela pensar que os defeitos do marido foram a herança direta do pai. Ele também a espancava de vez em quando.

Às sete horas, o padre, afinal, chegou. Benzeu o moribundo. Fez as suas orações. "Grande palhaçada". Achava aquilo completamente desnecessário. O pai não seria salvo da ira de Deus por aquelas rezas. Não obstante, o velho parecia sentir mais conforto e alívio com a presença do intermediário do Senhor. Ao final de meia hora, o ritual chega ao fim. Aproveitou a presença do padre para negociar o preço da missa de sétimo dia. O padre comovido com a dor do filho, fez-lhe um abatimento de vinte por cento. O velho entrava em estado delirante. Chamava por nomes a eles irreconhecíveis. Maria, Roberta, Luíza, Antonieta... eram os nomes das mulheres do conquistador de outrora.

Quando relógio bateu oito horas, piora o estado do pai. Os médicos são chamados. O velho se contorce de dor no leito. Fecha os olhos por alguns instantes. Parece morto. Volta a abrir os olhos, o filho ao seu lado, oferece a mão. O pai a segura com bastante força, desesperado. Cena horrível de se testemunhar. Os olhos reviram de terror. Era Morte que chegara, implacável. Pela primeira vez nos sete meses, derramou algumas lágrimas, o filho. Oito e vinte, o velho morre.

Nada mais a ser feito, saiu do quarto. Estava de certa forma, aliviado. O processo chega ao fim, com o desfecho previsível. Ligou para a esposa informando o ocorrido. Ela recebeu a notícia, sem expressar qualquer emoção, nem tristeza, nem alegria. Depois de assinar alguns papéis no hospital, foi tratar das pendências do enterro. Na saída, encontrou com a enfermeira, trocaram palavras e olhares. Saiu com o número do telefone dela.

* Música Instrumental do grupo Legião Urbana, que está no quinto álbum do grupo, O Descobrimento do Brasil.


FLÁVIO VINÍCIUS COSTA, 21 anos, nasceu em Salvador. É estudante do segundo ano de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Gosta da música, gosta de beber, gosta da vida, mas sente fascínio pela morte.