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O encontro
Tudo ficava para trás agora. À medida que o ônibus avançava na estrada,
o passado ia sendo abandonado às pressas. Mas eu tinha a certeza de que
ele me acompanhava, seguindo os rastros do pneu, depois os meus próprios
passos até se ocultar na minha sombra. E algum dia, mesmo distante,
quando eu me virasse, ele estaria ali, revivido. Aquele encontro, que
era como um marco, como que dividindo a minha história em duas partes,
duas vidas, antes e depois dele, ambas inevitavelmente opostas.
Foi quando eu completei a idade da razão. Minha avó achou que já era
tempo de eu saber sobre o meu começo e, num esbravejo de cólera e
tentativa de alívio, ela liberou o segredo tão abruptamente que eu, já
crente numa mentira, achava difícil acreditar na verdade.
- Ele não presta, o seu pai não vale nada, deixou você e sua mãe e nunca
quis saber de responsabilidades.
Ela já havia tolerado demais as minhas tolices. Eu falava o tempo todo
nele. Não importava que estivesse morto, sua memória estava preservada e
eu sabia que se, naqueles momentos difíceis de falta de dinheiro e
doença, ele estivesse conosco, tudo seria diferente.
- Morto? Ele está é bem vivo, só não se sabe onde. E pára de falar nesse
homem.
Vivo? Será que a minha avó delirava? Fui perguntar à madrinha. Ela
confirmou tudo e só então eu fui timidamente falar com minha mãe.
Conservei baixa a cabeça e com meias palavras perguntei como se ela
pudesse decifrá-las:
- É verdade sobre o meu pai?
Ela balançou a cabeça afirmativamente e disse para eu não ter raiva
dele. Era um homem bom.
Desde então eu me enchi de risos e muitas esperanças. Se estava vivo,
poderia conhecê-lo. Poderia conferir meus traços. Não restava nenhuma
foto? Sempre disseram que não até que um dia a madrinha falou que uma
tia distante possuía uma. Pensaram que eu não fosse procurar a tia. Fui,
mas era mentira de novo. E não sabem para onde ele foi? Não, partiu sem
deixar vestígios. E a família? Não conheciam. Como era mesmo o seu nome?
José. E o sobrenome? Não lembravam bem. Quantos anos tinha? Era rapaz
velho. E a cor dos olhos? Cor de folhas secas. Todas as perguntas eram
feitas à madrinha, que as respondia sem muita convicção, às vezes
inventando. E foi ela, a madrinha, que um dia descobriu o paradeiro
dele. Estava no norte de Goiás.
Os anos passaram e eu dobrei a idade sem esquecê-lo e sem abandonar as
perguntas, cada vez mais perscrutadoras. Pedia à madrinha que me
ajudasse a encontrá-lo. Ele sabia de mim? Sabia. E mesmo assim eu o
desculpava.
Um dia ela resolveu me ajudar. O padrinho encontrou um primo distante de
meu pai, que prometeu promover o encontro. Foi marcado o primeiro. Seria
na casa da madrinha para mamãe não sofrer e não provocar ciúmes no
padrasto. Eles não vieram. No outro dia veio o primo desculpando-se e
relatando um acidente sofrido por meu pai.
- Eu posso ir vê-lo? Afobei-me em perguntar.
- Não - ele ficou acabrunhado - seu pai logo deixará o hospital. É coisa
à toa.
Foi marcado, então, o segundo encontro. E, de novo, ele não apareceu.
Estava grave o seu estado, mas não me deixaram ir vê-lo. A mulher dele
podia não gostar. Até que um dia o primo veio desolado, com os olhos
fugidios, avisar:
- Sinto muito, seu pai morreu.
Chorei tanto que não imaginava ter tantas lágrimas guardadas e solucei
tão alto como nunca fizera antes. Sempre chorava baixinho e escondido
para ninguém ver. Todos choraram comigo. A madrinha me abraçou e soluçou
também. O padrinho não derramou lágrima, tentava secá-las antes que
caíssem dos olhos balançando a cabeça de um lado para o outro e dizendo:
coitadinha! Até mamãe chorou. Mas todos choravam por mim, só eu chorava
por ele.
Não pude ir ao enterro. O primo informou que o corpo havia sido levado
para a cidade onde morava a família. Era domingo. O carro do padrinho
não tinha gasolina. E o primo? Ele não podia levar, inventou uma
desculpa. E começaram a me consolar:
- Para que vê-lo morto e guardar uma má lembrança?
Mesmo morto, ele continuava vivendo em mim, como da primeira vez que me
mentiram a sua morte, eu somente não fazia mais comentários. Mas quando
vinham os problemas, eu pensava que se meu pai estivesse conosco, tudo
seria diferente.
Como eu ainda insistisse, um dia apareceu uma mulher da cidade de meu
pai para desmentir o primo:
- Que absurdo! Ele está bem vivo. Foi padrinho de casamento da minha
filha. Homem farturento!
Não vivia mais com a mulher. Esta o deixara por outro. Tinha cinco
filhos, dos quais dois eram adotivos. Adotivos? Era a culpa na certa
incomodando a consciência. Era um homem bom.
Esperei, então, que a mulher lhe falasse a meu respeito. E no dia do meu
aniversário, esperei-o no alpendre, às vezes no portão.
Ele não veio.
Na certa era a mulher, não havia cumprido o trato.
Tinha virado obsessão. Fazia e refazia o seu perfil até que resolvi
encontrá-lo. Procurei na lista telefônica o telefone de alguém da cidade
dele com o mesmo sobrenome. Falei com uma mulher. Não, eles não eram
parentes, mas ela o conhecia. Iria pegar o endereço dele. Ligasse no dia
seguinte. Liguei. Ela me deu o endereço. Escrevi e ele me telefonou.
Combinamos o encontro. Tive que contar à mamãe e ela relutou, achava que
eu não deveria ir. Mas consegui aprovação para viajar. Iria acompanhada
por uma tia, escondido do padrasto.
No dia da partida, nunca vou esquecer, mamãe acenava do portão com os
olhos compridos, imaginando talvez que eu viesse a gostar mais do pai e
não voltasse, porque lá pelo menos não tinha madrasta.
O dia da chegada veio quente, o suor escorria-me pelo corpo. A tia
estava com a cara amassada, os olhos mal dormidos. Todos no ônibus
estavam acordados e amuados.
Depois de uma noite inteira na estrada, o ônibus estacionou. Meu coração
disparou. A cidade era pequena e a rodoviária suja, dava nojo pisar.
Desembarcamos com as malas e comecei a procurá-lo. Rodeei a pequena
rodoviária à sua procura. Antes de completar a volta, esbarrei-me com um
homem baixo, metido num chapéu. Passei por ele. Ele me olhando. Acabei a
volta e fui para junto da tia. Com ela encontrei meu irmão que, dias
antes, fora me conhecer na capital. Ele ainda sonolento apontou para o
homem que me olhava e disse:
- Esse é o seu pai.
Não nos abraçamos, nem choramos. No caminho para a casa dele, a alegria
do encontro me fez conformar em ele não ser como nos meus sonhos.
Somente no segundo dia da visita conseguimos, de fato, conversar a sós,
depois de passado o assédio dos tios e primos que foram me receber em
meio a cortesias e muitas perguntas, e depois de saciada a curiosidade
dos irmãos mais novos. Mesmo sem eu reclamar, ele se achou no dever de
dar uma explicação a tudo que havia acontecido, o motivo de ter nos
deixado. Começou meio hesitante e a primeira e única frase que conseguiu
dizer, porque fomos interrompidos pelo café da prima e ele não falou
mais no assunto, foi que tudo o que ocorrera entre ele e a minha mãe não
havia passado de um encontro.
SALMA SILVA nasceu em Goiânia - GO, a 28 de abril de 1969.
Graduou-se em Letras na Universidade Federal de Goiás, onde concluiu o
Mestrado em Estudos Literários, em 1999. Cursa o Doutorado em Teoria
Literária na Universidade de Brasília. É professora de Literatura
Brasileira e Literatura Infanto-Juvenil no ensino superior no Distrito
Federal. Publicou dois livros, um de poesia, Fio, e outro de crítica
literária, O mito do amor em Marina Colasanti.
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