 |
 |
O amor de Tiradentes
A aragem vespertina sussurra por dentre os ramos das árvores,
alimentando ainda mais o clima romântico entre o casal de namorados.
Que, ao pé de uma delas, troca juras de amor eterno.
A jovem traz consigo os refinados traços nobres da corte portuguesa,
cabelos do dourado mais puro, destacam os olhos da cor das esmeraldas. O
desalinho produzido pelos arroubos amorosos, deixa entrever o inicio de
um par de seios formosos. “Pele de princesa”, lhe murmurara seu
apaixonado, de nome Joaquim José da Silva Xavier.
Tanta ousadia em caricias ardentes demais para um início de namoro na
provinciana São João Del Rei, se explicava pelo fato de seus
protagonistas terem um contato maior com a Corte Imperial. Ela, como
filha de portugueses há pouco estabelecidos na localidade, ele, como
negociante-ambulante, que exercia ao mesmo tempo a atividade dentária e,
por ser um hábil dentista, já fizera nome no Rio de Janeiro.
Os boatos e cochichos sobre os encontros da filha com “aquele colono,
que ainda por cima é moreno!”, acabaram chegando até o pai da moça, e
este não ficara nem um pouco satisfeito com o candidato à genro e
explodira numa série de impropérios ao pedir explicações para a Julieta
das Gerais, encerrando, por fim, a já prolongada discussão de forma
categórica:
- Ou você desiste dessa loucura ou então vai mofar num convento em
Portugal!
O ultimo encontro dos namorados ocorre dois dias depois. A moça andara
desmarcando ou mesmo não comparecendo a vários outros. Isso acabara
causando preocupação e angústia no rapaz.
O sabor da despedida definitiva, se é amargo para quem já vêm com a
decisão tomada, é um tormento desesperado para quem não estava esperando
por aquela ruptura. Os beijos deixavam de ser doces, para serem dados
com gosto do sal das lágrimas. A partida final é um breve aceno de mãos,
agora tímidas e depois um não-olhar mais para trás. A voz trêmula de
Joaquim encerra a história daquela breve paixão:
- O preconceito de teu pai para com a minha origem humilde, a minha
falta de educação formal, é a causa da destruição deste amor. Mas, eu te
juro, minha Princesa, que vou lutar com todas as minhas forças para
mudar este País, para fazer com que as pessoas possam serem livres em
suas decisões, em suas opções de vida, sem serem exploradas por um poder
arbitrário, que a todos nós sufoca. A partir de hoje, a minha vida nunca
mais será a mesma. Jamais outra mulher irá fazer bater mais rápido este
meu coração, que só a ti pertence. A partir de agora, ele estará
dedicado em tempo integral à Causa da Liberdade deste País!
Dias, depois, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, vinha a
ingressar na carreira militar como Alferes, modificando os rumos da
História do Brasil. Se aos historiadores fosse permitido vasculhar os
sentimentos dos revolucionários de todos os tempos, certamente que se
observaria em cada um destes corações inquietos, a presença da chama
ardente de um grande amor.
JOÃO WEBER GRIBELER é natural de Roque Gonzales. Na atividade
literária, atua como editor e tradutor (espanhol). Idealizador e
organizador do Concurso Prêmio Missões e da antologia Letras
Contemporâneas, é o coordenador da Igaçaba Produções Culturais e edita
mensalmente o Jornal Igaçaba, que inclui o Caderno da Cultura, dedicado
aos temas culturais. Como autor, tem publicado contos e poesias em
diversos periódicos e antologias e os livros individuais: Um sonho que
se foi (novela, 2003) e Párias da História (romance, 2004).
|