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Do livro de receitas da vovó
Na noite enluarada, revi Ricardo em pensamento e foi então que nasceu a
vontade de comê-lo.
Nos dias que se seguiram, pus-me a afiar o gume enferrujado de meu
desejo, relembrando com intensidade o magnífico espécime: íris marejando
entre ondas de azul e cinza, nariz um pouco carnudo, lábios sensuais que
mastigavam palavras.
As papilas gustativas excitadas, lambi, com os olhos da imaginação, os
músculos poderosos do pescoço e os que lhes vinham logo abaixo, num
harmonioso movimento de contração e distensão, sob a camiseta colada.
Era bem definido, o Ricardo.
Refiz na lembrança a dança sinuosa de deltóides, mastóides e bíceps,
deixando à fantasia de como seriam o reto femoral, o vasto lateral, o
tibial anterior, para não falar dos meus prediletos, os grandes glúteos,
cujo traçado se podia divisar pelo contorno da calça jeans. Músculos
maravilhosos num homem superlativo, como há muito tempo eu não via.
A hiena que dormitava acordou de vez: alerta, disposta e, sobretudo,
esfomeada. Era preciso tê-lo só para mim, nem que fosse por algumas
horas. Planejei, então, um almoço no campo e antes mesmo de ser
apresentada à minha presa, fui buscar no livro de receitas herdado de
minha avó, as sugestões de cardápio.
Tira-gosto:
PICADINHO AO DIABLE
3 colheres de sopa de óleo
750 g de carne moída (coxão mole ou alcatra)
1 cebola ralada
pimenta, muita pimenta
Modus Faciendi
Desosse a parte traseira do pobre animal e corte-lhe a carne em tiras
finas. Se ele berrar, acerte-lhe a cabeça com um objeto pesado (que deve
estar sempre à mão). Doure a carne na cebola, mesmo que ela já seja
naturalmente dourada pelo sol. Junte os ingredientes restantes e cozinhe
lentamente. Nada de pressa. Frua seu prazer. Ótimo para servir com purê
de batatas, arroz ou macarrão.
*
Através de bons amigos, consegui que fôssemos apresentados. Daquela
ocasião ficou-me, na palma da mão, a quentura da carne tenra; na retina,
o bronzeado saudável, e por todo lado, um discreto cheiro de suor que me
atraía. Tirando uma pequena falha nos dentes e as unhas roídas até o
sabugo, ele era de todo aproveitável, candidato certo para um banquete
de emoções. Trocamos telefones e fui para casa saborear meu sonho.
Liguei-lhe no mesmo dia. Do outro lado da linha, a voz cálida aceitou
meu convite para o dia no campo. Seria perfeito. Quem? Só nós dois. No
sábado, então! No sábado.
Entrada:
TORTA DE CARNE E CEBOLA
750 g de carne moída
2 colheres (de chá) de molho inglês
½ colher de chá de sal
2 xícaras de cebolas cortadas
Da carne que sobrou e vai sobrar muita retire 1 kg. (não é necessário o
rigor de um Shylock - esqueça Shakespeare). Voltando à nossa carne,
comece a triturá-la. Você pode usar máquina de moer ou seus próprios
dentes. Acredite-me: este último processo, ainda que mais trabalhoso,
garante prazer redobrado. Depois, coloque a carne numa vasilha grande,
junte os ingredientes e misture bem. Asse em fogo brando, sem pressa. A
espera tem lá suas recompensas. Quando estiver no ponto, corte em fatias
como se fosse um bolo e sirva-se.
*
Muito trabalho pela frente. Em primeiro, ir até a casa de campo, perdida
no meio do matagal. Não fosse distar só 150 km. de São Paulo, eu diria
que fica quase no fim do mundo. Mas gosto da minha velha casa, apesar de
dizerem que está em ruínas. Não para mim. Acho que tem o apelo das casas
velhas, a hera subindo pelas paredes, dizendo de um tempo que já se foi,
de gente que um dia viveu. Escadas que rangem, barulhos no meio da
noite, gritos; alguns dizem que ouvem gritos. Juram que são almas
penadas, mas eu não acredito em nenhuma dessas bobagens. Mortos não
voltam. Não voltam nunca mais, nem mesmo para contar como foi que
morreram. Ainda bem.
Hors-d'oeuvre:
SERPENTINAS DE FÍGADO
750 g de fígado de vaca, vitela, ou qualquer outro animal
½ xícara de farinha de rosca
½ xícara de cebola bem picada
½ colher de chá de sal
uma colherada de banha
Esqueça um pouco a carne. Vamos a uma operação bem mais delicada:
escolha uma faca cujo fio esteja tinindo de afiado e faça uma grande
incisão no abdome do animal. Mergulhe a mão no talho e retire o fígado
(melhor trabalhar com ele ainda quente). Corte em tiras, frite na banha
e divirta-se observando como as tirinhas se contraem, estalam e ficam
douradas. Ninguém diria que já foi um fígado, não é verdade? Junte aos
demais ingredientes e ponha-se a degustá-las, uma a uma, como se fossem
serpentinas num gostoso carnaval de prazeres.
*
Como dá trabalho receber um hóspede! Compras: manjericão, orégano,
cebola, farinha, ovos, alho, azeite, noz-moscada, estragão, alho-poró,
cebolinha, salsinha, pimenta do reino, isso para a carne.
Acompanhamentos (opcionais): arroz, batata, farofa para churrasco,
alface, tomate e cenoura. Sobremesa (se restar lugar): frutas. Bebida:
água e vinho tinto, o mais vermelho que encontrar. Lembrete: comprar
bastante lenha para fazer a carne no meu velho fogão de ferro, que de
tão grande dizem que dá para assar um boi. Que exagero! Ah, sim:
material para embalar e congelar, porque vai sobrar muita coisa.
Primeiro prato:
MIOLO EMPANADO
½ kg de miolo
sal - água - vinagre
1 cebola média bem picada
farinha de rosca - 2 ovos
Agora chegou a vez dos miolos. Imagino que haja bastante. Serre o tampo
superior da cabeça e retire os miolos ainda fumegantes. Corte aos
pedaços, passe no ovo e na farinha e depois frite juntamente com a
cebola. Se tiver miolo demais, reserve uma parte para fazer bolinhos,
que são saborosos e de preparo rápido.
*
Limpo a casa de cima a baixo. Muita poeira acumulada. Afasto as cortinas
e deixo que o sol lamba tudo. Faço a cama, ponho lençóis limpos e
cheirosos pensando em como estarão amarfanhados, manchados e usados no
próximo sábado. Tenho vontade de soltar um uivo de alegria, mas me
contenho. Devo guardar todos os sentimentos e sensações para a hora
fatal. Arrumo a mesa com a melhor porcelana. Guardo os mantimentos na
cozinha e disponho os utensílios com cuidados de mestre: a machadinha, o
facão, as tesouras, as facas menores para desossar, destrinçar, separar
as articulações, descarnar. Experimento o serrote na eletricidade.
Grande invenção, esta. Nos velhos tempos, havia que se usar os músculos
mesmo. Agora tudo ficou mais fácil, mesmo para mim, que sou meio
canhestra. Admiro os açougueiros e os cirurgiões que destrinçam com
arte, numa cirurgia higiênica. Não é o meu caso, infelizmente. Arranco
os pedaços, e ao final há gordura, sangue e cabelo misturados com carne
tenra e boa. Imagino o quanto devo perder durante o processo por pura
falta de habilidade. Ou afoiteza...
Prato principal:
CORAÇÃO (RECEITA CASEIRA)
Você já deve estar cansada, mas não desanime. Estamos quase acabando!
Pegue o facão e abra o tórax, expondo o coração que ainda palpita,
pulsa, lateja. Arranque-o sem dó. Olhe como é lindo. Segure-o bem alto,
acima de sua linha de visão e perca-se em admiração. Rubro como o vinho,
quase marrom. Ele que bomba a vida, entra dia sai dia. É magnífico. Você
tem em suas mãos o relógio do tempo, a máquina da vida, e seu sentimento
de euforia chega a paroxismos de loucura. Epifania. Joyce. Quisera poder
segurar o próprio coração assim e devotar-lhe o culto e o respeito. É o
órgão do amor, tão cantado pelos poetas - qual poeta ou prosador não lhe
dedicou versos e linhas? Por causa dele, homens e mulheres se amam, se
matam, se traem, se aniquilam. É ele quem faz a vida e quem a tira.
Começo e fim, pelos seus batimentos adivinha-se o que vai na alma.
Coração apaixonado, acelerado, odiento, triste, feliz, apaixonado,
parado. Mãos à obra. Nada de temperos, nada de frituras, nada de
assadeiras. Assim como está, ainda quente em suas mãos, aproxime-o da
boca e sorva, olhos fechados, a vida à qual ele deu ritmo, tique-taque
de cuco, de relógio, de tempo, de eternidade. Sorva-o lentamente e agora
crave seus dentes e sinta como a carne se despedaça dentro de sua boca,
como num beijo de amor.
*
Tudo pronto. Volto para São Paulo na sexta à noite, exausta e ainda
assim, insone. O dia seguinte vai custar a chegar. Cheiro a tempero e
produtos de limpeza. Entro num banho quente, espuma até o queixo para
aliviar o corpo dolorido. Esfrego-me toda e excito-me com imagens da
bela carnadura de Ricardo sendo massageada pelas minhas mãos, estimulada
pela minha língua, saboreada pelo meu desejo. Vejo os vergões que minhas
unhas vão traçar no torso poderoso. As unhas! Devo tratá-las. Saio do
banho e cuido das mãos e dos pés. Esmalte vermelho-sangue que cintila
sob a luz dicróica do meu olhar, o corpo nu refletido no espelho
embaciado do banheiro. Pego o batom, pastoso, cremoso, e com ele esfrego
meus lábios, que vão se tingindo de vermelho, primeiro dentro de seus
próprios contornos, depois, propositadamente deixando os bordos e se
espalhando desde as narinas que inflam, buscando no ar o cheiro da
presa, escorrendo bem devagar pelos dentes, pela língua, pelo queixo,
como um delicioso molho de pomo d'oro, fruto dos deuses, cor da ira,
carne viva que vibra e que queima, que provoca e que endoidece.
E a hiena rediviva, molhada de espuma, suor e lascívia, depois de tanto
tempo de espera, vai até a janela, olha a lua e solta uma gargalhada que
ecoa na noite de promessas. Amanhã, finalmente, matará sua fome.
CONSELHOS ÚTEIS (em post scriptum): O QUE FAZER COM OS RESTOS
*guardar a carne, desprezando pele, gordura, cabelos e eventuais
vísceras (depende do gosto de cada um);
* aferventar os ossos: o caldo serve de base para uma deliciosa sopa;
* tíbias, perônios e fêmures podem ser atirados aos cães.
* Imaginação e criatividade sempre trazem surpresas prazerosas.
* Lembrete: só por que você está saciada, não vá esquecer de dar sumiço
na carcaça. O melhor é enterrá-la bem fundo, em local ermo, ou queimar
no forno até que vire cinzas. Uma boa solução, também, é mergulhá-la num
tanque contendo ácido sulfúrico.
JEANETTE ROZSAS
é advogada formada pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e
Procuradora Municipal. Atualmente se dedica exclusivamente à Literatura,
escrevendo contos, crônicas e roteiros. Vem recebendo inúmeros prêmios
em concursos literários, inclusive no Exterior. Organiza Oficinas
Literárias, orientadas por escritores de renome como Walcyr Carrasco,
Silvio Fiorani, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Felipe Moisés, Cláudio
Willer, Del Rangel e Rodolfo Nanni, Sinval Medina. Participa de várias
antologias. Lançou no final de 1996 uma coletânea de contos, em
co-autoria com sete escritores do Grupo Contares, do qual é fundadora,
bem como um livro solo, também de contos, denominado "Feito em
Silêncio", pela Editora Vertente. No final de 1999, lança, juntamente
com onze contistas de seu grupo literário, a coletânea "Outros
Contares". Em julho de 2003 publica o romance "Autobiografia de um
Crápula", a convite da Editora Limiar, em formato pocket, cujo texto foi
premiado pela Associação dos Magistrados do Brasil e sagrou-se vencedor
no Concurso literário da Cidade de Conselheiro Lafayette.É diretora da
União Brasileira Dos Escritores -UBE, biênio 2004/2006, membro da
Associação dos Poetas e Escritores da Baixada Santista -APEBS e da Rede
de Escritoras Brasileiras_ REBRA. Desde 1998 é Diretora Cultural do Club
Athlético Paulistano, onde desenvolve importante programação cultural.
Participou da oficina de roteiro cinematográfico, ministrada por Jorge
Durán no SINDCINE, no período de 20/06 a 05/07 de 1998 e do Workshop de
Roteiro ministrado pelo professor Richard Walters (UCLA), durante o 14
RIO CINE FESTIVAL, em Julho de 1998. Fez cursos de roteiro para
televisão, orientados por Walcyr Carrasco e Renata Pallotini (ARTV-2003)
e acaba de apresentar leitura dramática de sua peça Beco sem saída,
escrita durante a oficina de dramaturgia orientada por Samir Yasbek
(2004). Tem conto publicado na revista Ficções, de contos (n. 12) É
colaboradora dos sites literários Capitu, Nave da palavra, Leitores e
livros, WMulher. Publica mensalmente no Diário de Aveiro, Portugal.
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