De teias e paletas

“O espelho maravilhosamente cinzelado, presente antigo de lorde Henry, estava sobre a mesa. Os cupidos que o enquadravam continuavam a sorrir na moldura. Dorian Gray apanhou-o – como fizera naquela noite de horror, quando notara pela primeira vez a deturpação do retrato fatal –[...]”
O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde



Vivo de pintar gentes e capturar cenas que pressinto relevantes. Atravesso os dias em caminhadas solitárias por lugares inusitados da capital. Ainda que o inverno me atemorize, aprecio dias plúmbeos para misturar-me à pulsação acumulada nas calçadas gastas e aos rostos dissolvidos na correria urbana.

Quando a conheci era Sexta-feira e chovia sem muita ênfase. Dia desses em que a companhia das coisas antigas, impregnadas das histórias alheias, soa convidativa para os melancólicos de plantão. Não era mulher de eloqüências costumeiras, mas sem insistências ou precauções mostrou-me idéias e luzes que nela se agitavam. Vagávamos pelo museu e foi ela quem puxou conversa. Não nos evitamos e o que veio fluiu sem arestas ao longo da tarde que passou a ser como parte das peças ali expostas, como um daqueles cristais que abrigaram líquidos diversos em cenas que não tivemos a chance de testemunhar. O encantamento que nos invadia no exercício de imaginar o cotidiano dos usuários daqueles objetos já devassados por intempéries, poeira e teias é que talvez tenha feito a aproximação reciprocamente bem aceita. Escutei-a com o mesmo gosto de quem escolhe a sinfonia adequada à sazonalidade que lhe vai ao peito.

Falou-me que previa para breve o rompimento da monotonia e que imaginava-se vestindo novamente os tempos de seus vinte anos. Minha expressão deve ter indicado perplexidade. Ouvi atento a sua curiosa metáfora de morte: preparava-se para abandonar a rotina sem muitos ruídos, de chás ao final da tarde e cheiros de ervas pela casa. Retomaria sua juventude. Afirmava isto como se viagens no tempo fossem coisas comuns. Não mencionava o tema morte com clareza, mas era possível perceber um suave sarcasmo em sua descrição – um certo ar de invencibilidade. Dizia imaginar-se embarcando nos seus 20 anos, munida do jeito de pensar que levara mais de seis décadas a moldar, como quem planeja uma viajem de ônibus ou de navio e se vê escolhendo, sem pressa, um espaço confortável e com boa vista para acomodar-se, ciente de um longo percurso à frente; e falava como se isso fosse acontecer na semana seguinte ou a qualquer momento no meio da repetição dos rituais diários.

Soube que sentava-se todos os finais de tarde, na mesma poltrona, num canto entre a penumbra e a luz amarelada que entrava pela janela; sentava-se de costas para a parede recoberta com o papel de listas em diferentes tons de azul e algumas tonalidades acinzentadas. Soube também que esses azuis guardavam marcas de tonalidades esmaecidas, resultado do seu hábito de mudar os quadros de posição e alterar a disposição dos móveis, permitindo ao sol da tarde caminhos diversos na travessia das estações do ano. As marcas residiam com ela assim como seu retrato em óleo – presente de um pintor de pinceladas comedidas que muito estimava sua mãe.

Não foi difícil escolher o traço e as cores para a representação do seu território, do seu silêncio. Imaginei detalhes, cheiro de manjericão, canela e outras ervas emanando da cozinha enquanto ela deixava-se abraçar pelo hábito diário do chá, contemplando a fumaça subir suavemente acima da xícara. Pareceu-me ser assim que esperava pela morte, encarada sem realismo, mas também sem pesar.

Não recordo com precisão tudo que falamos, mas lembro que sua voz era afável. Tinha cabelos brancos, mas não daquele matiz lúgubre que se vê nos idosos pálidos que se prostram em decadências desnecessárias. Os dela tinham um tom de dourado macio e distribuíam-se em cachos bem acomodados em sua cabeça altiva. Sua altivez, porém, não era do tipo arrogante, continha um recolhimento satisfeito com a solidão e silêncio que escolhera para si. Aquela cor e textura fixaram-se nas memórias do dia de chuva como uma presença que veio para suavizar a dureza do frio.

O percurso do museu ao café foi preenchido por agradável conversa, que nos permitiu sublimar a temperatura e a garoa. Nada de diálogos épicos, mas falas que nos fizeram revestidos da suavidade própria das tardes de chuva mansa em que não há grandes deveres a cumprir. Falamos daquilo que nos despertava a curiosidade e cobiça de saber: o passado, as gentes, o tempo, enfim. Tudo um tanto vago… talvez inútil, mas prazeroso.

Despedimo-nos sem marcar novo encontro e sem troca de telefones ou endereços, mas sabíamos que algo grande acontecera e o gosto de amizade que tingiu o riso fez da despedida mais que polidez.

Não me ocorreu, nem por um instante, traduzi-la como uma pobre velhinha precisando de atenção; também não creio que ela tenha vestido-me como o filho que não gerou e que gostaria de ter como companhia. Eu, que ainda não havia conhecido o retrato em óleo, pintado quando estava por completar 25 anos, adivinhava os traços que portava então, e era nesses tons que sua personalidade imprimia-se na tela que involuntariamente atribuo às cenas relevantes do caminho. Seus passos e falas eram as tintas de que me servia. Habitava-lhe o mesmo fascínio pelo antigo que conduz o meu olho inquieto, e ainda a mesma curiosidade sobre a vida esquecida de pessoas que poderiam habitar páginas ou películas impressionantes e que resignaram-se a habitar histórias que deixaram de ser contadas. Existências finitas que nunca foram sequer capturadas ou inventadas numa imagem de se guardar no para sempre precário que está por vir.

Alguém, por pura desatenção, poderia dizer que a velhinha estava já perdendo o juízo ou a lucidez. Achei-a fascinante. Talvez um pouco incoerente por essa agitação íntima contrapondo-se ao silêncio externo em que vivia. Eu quase podia ver suas idéias, como num filme que minha imaginação, usualmente cinematográfica, produzia.

Alguns dias depois do colóquio no museu, enquanto preparava um café para afugentar o tédio e acompanhar os bombons de damasco, comprados no intuito de dirimir o desabrigo que me acompanha em dias nebulosos, sentia o aroma impregnar o ar e a fantasia da velha do museu instalar-se junto da xícara que aguardava o líquido denso. Ela havia dito seu nome, mas para tais atributos a memória sempre me pregava peças. Só o gravei realmente quando reencontramo-nos na livraria próxima de meu apartamento: Esmeralda.

Poderia supor que se chamasse D. Luísa, dentro das curiosas associações que costumo fazer entre nomes e figuras. Luísa combinaria com seus sapatos sóbrios, mas ela chamava-se Esmeralda e a cor da pedra que a nomeava poderia descrever bem a satisfação margeando euforia que invadiu-me quando a vi no corredor de literatura francesa. Ela procurava um dos tomos da obra de Proust.

Hesitei um pouco antes de falar-lhe, temia ser desagradável. Mas o medo dissipou-se quando ela, vendo minha expressão indecisa, abriu um sorriso amistoso. Isso bastou para que me aproximasse, tranqüilo, e lhe perguntasse como ía a vida. Nada de cerimônias ou cortesias formais. Era como se já fôssemos amigos de partilhar cinema e caminhadas no parque. Localizamos os livros que procurávamos e sentamo-nos no café da própria livraria, onde perguntei-lhe das expectativas para a viagem.

Ela riu com gosto e disse que não tinha pressa, mas ainda esperava, segura de que sua passagem estava reservada. Falamos de coisas amenas, do sabor de licores e da textura de pratos saborosos, roçamos de leve o tema da discrepância entre as maravilhas e tragédias que se pode construir na vida e acabamos o encontro marcando um cinema para a próxima tarde em que o suposto acaso voltasse a nos aproximar.

Reconstruindo na memória cada minuto daquele encontro, que foi o penúltimo que tivemos, as idéias agitavam-se sem rumo. Percebi-me obcecado com a idéia de sua viagem; indo além do seu percurso rumo à juventude: desenhava os movimentos de uma inquieta menina de 20 anos, perdida nas ruas barulhentas, a fotografar antigas construções para uma disciplina qualquer do curso de arquitetura. A figura dessa jovem, que era para meus olhos e veias a tradução do delírio mortuário de Esmeralda, começou a povoar insistentemente meus próprios devaneios, a tal ponto que desenhá-la tornou-se urgência. Depois do esboço no papel e horas gastas na decisão pelas cores que poderiam revelar o retrato, concluí que tão premente quanto pintá-lo era apresentar o projeto a Esmeralda, mas não o fiz. Atirei-me à vertigem dos pincéis.

Enquanto desenhava o que julgava ser a síntese das inquietações percebidas na mulher de nome precioso e talvez em meus próprios sonhos, sentia necessidade de contar-lhe o quanto agitava-se em mim algo incompreensível, cujas raízes estavam, de algum modo, no seu cotidiano quieto. Esmeralda despertou-me novo ânimo criativo e elevou ao insaciável minha curiosidade sobre a vida e seus absurdos e intrincados porquês. Elaborava o retrato daquela alma de mulher-rebuliço e imaginava as palavras para formalizar-lhe o convite a conhecer a imagem concebida de sua metáfora de morte e ressurreição. Tratava-se, num certo sentido, de uma obra dela também.

Depois de parir a pintura em tons de cinza e vermelho, o que consumiu algumas semanas, consegui, finalmente, andar com certa despreocupação pela cidade, voltando ao costume das pedras puídas das calçadas, sentindo a garganta arder com o ar frio ao subir um trecho muito íngreme, divagando sobre os trabalhos que precisava entregar à galeria. Mas nenhum pensamento chegava a pesar mais seriamente e eu seguia com relativa facilidade, já sem paciência para esperar aquilo que as pessoas costumam chamar de acaso. Era simples encurtar caminho, bastou vasculhar os bolsos do sobretudo em busca de seu endereço, que tive o cuidado de registrar no recibo da cafeteria, em nosso segundo encontro.

Comprei, no mercado público, o licor de amêndoas. O mesmo lembrado com ares leves pela Esmeralda que foi jovem tímida, sobre sapatos de verniz, misturando o licor no café para afugentar o gelo infinito que lhe assolava os meses noturnos de inverno, e fui, artista com ímpetos de roer as unhas, visitá-la.

A cada quadra revisava o endereço nítido no ticket. Estavam lá as letras sobre o papel delgado, impregnado num tom de azul que aproximou-me do revestimento de sua – descrito com tanta veracidade que me parecia palpável o caminho do sol sobre os quadros e cheiros da casa.

O prédio em que ela morava era exatamente um daqueles que a jovem pintura poderia fotografar por horas a fio, sob diferentes sombras, com pássaros pousados em suas sacadas espessas. Tratava-se de um edifício estreito, um pouco sufocado por dois prédios altos, quadrados, que o guarneciam, como que querendo empurrar-lhe dali. As modernas construções pareciam querer dizer que não havia mais espaço numa metrópole para todo aquele desperdício de detalhes, espaço e bons materiais para que simples pessoas os ocupassem. Talvez houvesse perdão para seu estilo rebuscado, de colunas sólidas e escuras, se ali estivesse instalada uma importante clínica médica ou um salão de beleza seleto, ou mesmo uma loja de móveis caros. Mas não, ali viviam apenas pessoas silenciosas, destoantes do ritmo das avenidas próximas.

Apesar desses tempos de assaltos, ali as neuroses de inúmeras chaves e trancas ainda não se havia instalado. Quando ia tocar o interfone de seu apartamento, estava saindo uma outra moradora, que perguntou-me a quem buscava e deixou-me entrar sem maiores atenções.

O apartamento ficava no terceiro andar, mas as escadas eram amigáveis e belas, preservando o fôlego já castigado pelo frio e pela caminhada. O mesmo que sofreu baque inesperado quando cheguei ao 301 e deparei-me com uma mudança em andamento. A vizinha do apartamento em frente logo veio perguntar se era parente. Neguei, sentindo-me quase um mentiroso. Perplexo, ouvia com dificuldade a enxurrada de palavras que aquela pessoa grotescamente amável despejava em meus ouvidos. Discerni somente o comentário sobre uma despedida que Esmeralda teria feito em cada apartamento do prédio, anunciando uma viagem longa, e algumas frases confusas sobre a família ter vindo recolher os móveis. Sem conseguir prestar-lhe atenção, entrei no apartamento para observar as marcas no papel de parede, já íntimas, rocei com a ponta dos dedos a mesinha de chá e a moldura do retrato que não fazia juz à intensidade de Esmeralda. Sua poltrona não estava mais lá e a mulher do apartamento da frente continuava seu discurso intrometido. Com ela ficou o licor de amêndoas. Comigo saiu o silêncio.

Na rua, sentia um nó querendo trancar a garganta e a cabeça ia seguindo um corpo que parecia alheio e sem rumo. Ocorreu-me procurar sua família, saber se havia adoecido ou realmente morrido; mas logo descartei a idéia. Por vários dias ainda insisti em reconhecer o rosto daquela alma aturdida, estampada na tela com vermelho e cinza, em alguma mulher apressada e decidida que passasse por minhas andanças na rua.

Talvez fosse a vontade de recriar as histórias que ela tanto quisera invadir com seu olhar detalhista, ou quem sabe os ecos do rebuliço que se instalaram na Sexta-feira no museu... mas a tela parecia-me mais que intensa, era quase animada frente a meus olhos ariscos. Pronta a desprender-se do linho e ganhar as ruas da cidade. Mais delírios, ou um enlouquecimento tênue que levou-me à criação de telas-criaturas parceiras daquela – algumas mais vermelhas, outras vestidas de mais carvão. Todas vigas certeiras para as teias indecifráveis deixadas por um tempo-aracnídeo que passou a habitar minhas idéias e paletas.

O que tornei-me depois de Esmeralda não era dor e também não chegava a ser um desconforto. Era mais como um acelerador fazendo barulho, esperando que o pé livrasse o pedal da embreagem e lançasse o movimento à estrada. Mas não havia mapas ou um destino desejado. E eu, que fiquei no Porto, vagava no frio dos finais de tarde em busca de algo que servisse de bússola, sorvendo dos dias esse gosto de ter chegado atrasado para algo que não soube ao certo o que poderia ter sido e ainda aqueles olhos escuros chamando para as possibilidades dentro da tela.