Crime e Castigo - A Peça de Teatro

Afirmavam já os italianos que a tradução poética de uma língua para outra seria sempre uma inevitável traição: traduttore - traditore, diziam. E é sob essa fatalidade que se dá também um outro tipo de tradução, a que ocorre quando transpomos uma obra de um certo gênero para outro. Essa ressalva cabe bem nesse início de texto em que me proponho a dizer algumas coisas a respeito da "adaptação" para o teatro do romance Crime e Castigo de Dostoievski. Completando a ressalva, devo acrescentar que quem se propõe a essa tarefa deve ter em conta que muito se pode ousar: pode-se cortar, pode-se criar, pode-se reinventar cenas e diálogos, só não se pode, ao se cometer tão fascinante traição, trair o espírito da obra que se deseja transpor ao palco. A companhia Teatroendoscopia soube muito bem, ao meu ver, escapar desse risco e deu ao público um belo trabalho.

A opção do grupo - escolha acertada, penso - não foi a da recriação de todos os episódios romanescos no palco. Não que tal procedimento não possa ser adotado, recordo de um contra-exemplo, já não muito recente, que foi a peça Macunaíma dirigida por Antunes Filho, uma excepcional recriação do romance de Mário de Andrade em que vertiginosa atuação dos atores não deixou de fora, que eu me lembre, nenhum momento do romance. Mas como fazer isso com uma obra gigantesca como é Crime e Castigo, exemplar ilustre dos grandes romances do século XIX? Como fazer isso com um romance em que a exposição da psicologia de cada personagem é feita de maneira minuciosa e ampla indissociada das descrições e dos fatos narrados? Há uma produção da BBC que para dar conta de todos os pormenores do texto russo optou por fazer não um espetáculo único, mas uma mini-série que trazia John Hurt no papel de Rodion Rascólhnikov. A opção do grupo foi a da "seleção e criação"; ou seja, muita coisa do romance foi deixada de fora, preservando-se, no entanto, a estrutura do enredo do crime do pobre estudante refeito com os elementos dramáticos que dão, em fim, o corpo e a essência do espetáculo.

Adotando este mesmo procedimento estético da seleção, do corte, outros resultados poderiam ser obtidos; seria perfeitamente possível realizar uma obra dramática, por exemplo, enfocando apenas o embate entre o inspetor Porfiri e Rascólnikov, deixando de lado tudo o mais; ou o enfoque poderia recair exclusivamente na questão da culpa de Rascólhnicov, passando ao largo de outras histórias como, por exemplo, a de Marmieládov. O grupo optou por uma outra saída, que foi a da adoção de um mínimo de enredo que envolvesse Rascólniocv, seu crime e sua consciência, e assim, muitas das narrativas secundárias do romance (a da relação de Dúnia, irmã do protagonista, com Piotr Pietrovitch, por exemplo) e que um leitor mais purista do escritor russo poderia se ressentir da falta, foram simplesmente postos de lado em benefício da coesão dramática possível em uma hora e meia de espetáculo. Além disso, o grupo procurou "atualizar" o texto de Dostoievski estabelecendo relações firmes com a presente realidade brasileira. Esta é em síntese a proposta do espetáculo. Vejamos agora de que maneira esta proposta foi levada a cabo.

O romance de Dostoievski está saturado de um certo clima de sufocamento. O estudante Rascólnikov, que vive em condições miseráveis num quarto minúsculo, alimenta-se mal e é acometido constantemente de febre, suor e falta de ar. Este clima de sufocamento é resolvido dramaticamente graças à concepção cenográfica adotada. O cenário é feito de coisas que se encontram normalmente num ferro-velho: um muro de pneus e ferros separa o palco da platéia; pequenos ambientes empilhados uns sobre os outros formam uma espécie de favela vertical em que uma geladeira velha, um pedaço de carro, um box de banheiro danificado, entre outras coisas do gênero, são as salas, os quartos, o bar ou um escritório em que mal cabe um homem encolhido e onde há muitas vezes duas ou mais pessoas terrivelmente apertadas. Estes reduzidos espaços correspondem ao sufocamento social vivido pelos personagens, é um modo de, através da concepção cênica, recompor o clima opressivo em que vivia a gente pobre da Rússia do século XIX, tão bem retratado no romance, e, ao mesmo tempo, de evocar o clima opressivo que vive o pobre no Brasil dos dias atuais, gente que se vê obrigada a lançar mão dos restos de uma sociedade industrial. Esta é uma das maneiras que a peça consegue, sem deixar de falar da Rússia do século XIX falar do Brasil de hoje. Percebemos ainda nos diálogos uma ou outra referência à nossa realidade presente; nada tão exagerado, felizmente, que nos desvie a atenção da trama que envolve o nosso jovem estudante russo. Nada daquela ridícula adoção de nomes brasileiros e de referências explícitas demais que quer justificar, como a pedir desculpas, por que se está se levando ao palco uma peça que não é nossa contemporânea.

Vamos à trama. O estudante Rascólnikov passa por dificuldades financeiras e recorre a Aliena, uma velha usurária odiada por todos e que martiriza a irmã que vive com ela. O moço a mata e a rouba, vê-se obrigado a matar a irmã da usurária que apareceu inesperadamente. É preciso estar atento à motivação do crime, esta envolve dois aspectos distintos, Rascólnicov mata porque precisa de dinheiro e também porque se julga um homem extraordinário. Porfiri, o inspetor de polícia, leu um dos artigos escritos pelo estudante em que este defende que existem duas espécies de homens, aqueles que tudo podem, os homens extraordinários e o resto da humanidade, os que nada podem fazer a não ser servir àqueles. O único senão que vejo na peça, em meio a tantas virtudes, é que poderia ser melhor cimentado esses dois aspectos da motivação do crime, ainda assim, isto não compromete o espetáculo. Cometido o crime, símbolo da queda para o religioso autor do romance, Rascólnikov se vê dividido, e há aqui um dos bons achados dramáticos do grupo que coloca concretamente esta divisão com a atuação direta de dois outros atores que dão forma à consciência fragmentada do protagonista. Isto está bem de acordo com um dos procedimentos estéticos mais preciosos do escritor russo, a polifonia, aspecto tão bem estudado por Mikhail Bakhtin.

Devemos atentar para o fato de que o crime não traz nenhum benefício para o protagonista, o fruto o roubo ficará sob uma pedra até a confissão final do criminoso, não cumprindo uma das motivações de seu delito. A consciência irá atormentá-lo, e a perseguição obstinada do inspetor Porfiri é o símbolo dessa consciência que não encontra repouso. Aliás uma das boas cenas da peça é a que trata do encontro entre o estudante e o inspetor no seu escritório. Através de buracos, vemos fragmentos do que ocorre no escritório do inspetor de polícia; num momento podemos ver o rosto de Rascólnicov que está mentindo, mais abaixo, vemos seus pés agitados que desmentem suas palavras. Na mesma cena, vemos a mão de Porfiri batendo numa laranja e explicando ao moço como se faz um suco com ela, sabemos que ele está falando de outra coisa, de como se deve arrancar de um criminoso a sua confissão. Só vemos aqui fragmento de corpos, o que faz lembrar certos closes, certos recortes e ângulos próprios de revistas em quadrinhos, o que dá à cena um vibrante frescor de modernidade. Ainda aqui, quando Porfiri serve Rascólnicov, o suco que este recebe tem a forte cor escarlate, um dado de caráter expressionista que abarca em síntese a realidade interna de toda da situação.

A peça não descuida também do humor, um humor ácido, naturalmente, como o que se vê no jantar fúnebre oferecido pela viúva de Marmeladov, onde afloram as mesquinharias do cotidiano em contraste com a tragédia do acontecimento recente, e tudo se expressa pelo humor negro. E rimos, que é no momento o melhor que se pode fazer.

À consciência atormentada do jovem criminoso não resta outra coisa a não ser confessar seu delito . Sônia, a prostituta, a moça que com seu corpo sustenta sua família, é que o ajudará com seu amor no passo a ser dado. Ao convencer-se da necessidade da confissão, a personagem empurra o palco que se abre, o personagem está agora libertado daqueles recintos apertados de mesquinhos cubículos, vai até uma encruzilhada para prostrar-se e confessar. Rascólnikov está pronto para receber o castigo. Mas o castigo é também uma redenção.

Podemos ver nesta história uma certa semelhança à história de Cristo. Uma das leituras que Jorge Luís Borges propõe do Novo Testamento é a do homem que sonhou ser Deus e no fim de sua vida descobriu que ele era apenas um homem comum. Podemos ver nessa aventura de Rascólnikov algo semelhante, a história de alguém que sonhou ser um homem extraordinário, que tudo podia e que nenhuma lei seria capaz de alcançar, mas que no fim descobre ser um homem ordinário, comum como a maioria de nós. Se ao término dessa aventura há um consolo, um consolo metafísico, é o fato de que no fim o protagonista pôde encontrar a sim mesmo.