Conto de Natal

É Natal.

Uma chuva miúda, em intermitências, cai desde o meio da manhã sobre o grande vale de Buliliwo, vestido do verde fresco das plantações. A perder de vista, canaviais, arrozais e milheirais prometem fartura, depois daquela longa e severa época de estiagem. O milho já espiga e exibe nas pontas uma barbicha aloirada que é garantia de saúde e de celeiros fartos, transbordantes. Hortaliça variada rasteja em canteiros cercados de valetas onde correm fios de água, límpidos e preguiçosos. Dos mangais evola-se o perfume de fruta madura, abundante e esquecida a apodrecer no chão; bananeiras vergam e acenam despedidas à vida com o amolecer dos cachos; batateiras de tubérculos sólidos e sadios, vagens de feitio variado; melancias de polpa vermelha e suculenta atapetam os solos em redor das casas.

Na estação local, o autocarro de carreira, fumarento e gemebundo, vomita passageiros que suspiram de alívio e de ânsias de rever a família e os amigos. Atrasara-se nos inúmeros apeadeiros, oficiais uns, improvisados outros, segundo as emergências e as necessidades dos passageiros, para descarregar gente e bagagens, no meio de um alarido de quem sabe que está a momentos de chegar ao fim de uma jornada. A bordo, cantilenas e conversas em tom alto dizem o quanto o álcool, sob a complacência dos fiscais, corre a rodos, novas amizades se forjam, antigas pendências se olvidam, novos pactos se ajustam.

Baba Mutikwa saiu da multidão ajoujado de bagagens, o corpo curvado ao peso de sacos e de malas. É como se carregasse consigo todos os sonhos da Humanidade. Como não poderia ser assim se passara todo o ano na cidade a sufocar de saudades da família e da casa, a consumir-se em privações e humilhações sem fim, ao longo de dias e noites e superiores que, sabe Deus?, teriam eles notado que era também ser humano? Torna-se-lhe, todavia, leve o carrego o espectáculo antecipado da imensa alegria que vão proporcionar as prendas. Do fardo daquele calvário ficarão esbatidas imagens, experiências de que reterá apenas o lado cómico e caricato, cuja recordação fará assomar aos lábios um sorriso de triste conformação. As explosões de contentamento, a força daqueles abraços e a espontaneidade de todas aquelas manifestações de júbilo que tanto o comoveram nas ocasiões em que revisitara o lar, dizem-lhe da ansiedade com que o aguardam. Tornara-se para si uma divisa o princípio de que quem de si ou do seu dá um pouco, do otro faz um pouco a felicidade.

Animado destes modos, vagaroso o passo, porque mais lesto não pode ser - ou era de propósito, como se ele pretendesse saborear o atraso da chegada? -, atravessa Popoma, povoação plantada à beira do caminho, submersa em milheirais.

- É bem-vindo à terra, baba Mutikwa- grita alguém do escuro, silhueta de ancião a cambalear ao seu encontro, a voz rouca de aguardente quotidiana.- Que nos traz da cidade?

- Desejos de boa saúde e de prosperidades. Para ti e para a tua família, Baba Chidikwe- retribue, cordial.

- Salve, baba Mutikwa- é outra saudação, mais adiante.- Que o ano que vem te traga mais riqueza.

- O mesmo te desejo, baba Mussengui.

- Olhem só quem está a chegar...baba Mutikwa em pessoa!- surpresa não contida naquela voz de mulher.

- Como estás uma mulher, minha filha!- clama Mutikwa, cheio de orgulho e satisfação.

- Boas-festas, baba. O que trazes para mim da cidade?- reclama a voz, que se adivinha de adolescente. Apesar do crepúsculo que se carrega baba Mutikwa descortina-lhe as feições e adivinha nelas as de, ainda há poucos anos, uma criança que levara ao colo e cumulara de guloseimas e prendinhas.

- Há! Que diria o ciumento do teu marido se eu te oferecesse o que trago nestes sacos? Teria de lhe pedir autorização...- brinca o velho sem vacilar o passo.

Ela perde-se no caminho a rir.

- Christmas, baba Mutikwa- é outro que o saúda, revelando assim a presença de imigrantes na vila que, como ele, provêm de longínquas paragens atulhados de cargas que farão a alegria dos seus íntimos. Vêm embalados de sonhos de iniciar projectos, e exibir os ganhos, de conquistar admiração e ascendência entre os conterrâneos.

- Baba, como pode passar sem me saudar?- reclama outra voz de mulher, em tom de fingida reprovação.

- Oh, os meus olhos estão cansados e neste escuro nem o caminho vejo- passo frouxo para dar atenção à mulher.- Feliz Natal, mamã.

- Feliz Natal, baba. Que muitas alegrias te traga o ano novo.

- É já uma grande alegria ver os nossos campos verdejantes, a nossa fome saciada e ter excedentes para vender.

- Baba, vejo que está muito carregado. Se precisar de uma mão tem já aqui a minha.

- Fico-te grato, minha filha, mas já cheguei ao destino. Mais um paso e estou dentro da minha palhota.

- Sabe quem vi esta manhã na vila?

- Como posso saber se não me dizes?

- A mamã Mutikwa. E vinha com um carrego de coisas que toda a gente só olhava.

- Sempre a mesma...

- Bons manjares o aguardam, baba. Ande depressa porque ela deve estar morta de ansiedade de vê-lo a chegar- sugere a mulher a retomar a marcha, para acabar por desaparecer no meio da vegetação.

Estas e outras mais conversas escoltam-no até à entrada de Kalumbo, etapa final da jornada.

A chuva abre tréguas. A espessura da vegetação adensa-se e com ela a escuridão, quebrada aqui e ali pelo amarelo fosforescente de vagalumes.

Rãs coaxam mensagens indecifráveis.

Baba Muitikwa caminha com o pensamento cheio de recordações e projectos. Era bom saber que a esposa o estimava àquele ponto, que ela se esfalfara o dia inteiro nas lojas para lhe proporcionar uma chegada condigna, à altura de um chefe de família respeitado e amado. Como a sua entrada no lar será efusiva, ela a correr ao seu encontro para o aliviar do peso das bagagens, estridências de risos e saudações de boas-vindas! Depois do banho quente, envoltos pela aura cálida do fogo da lareira, ele relatar-lhe-à as maravilhas da cidade, as suas turbulências e os seus ruídos, enfim, todas as excitações, porque as angústias, essas, ocultá-las-ia para si ou esbater-lhes-ia as cores, como se de vagas e supérfluas banalidades se tratasse, demasiado triviais à-partes sem nenhum merecimento para reter na memória.

Imagina-se - e um sorriso aflora aos lábios- a recontar muitas e recambolescas estórias, as palavras trituradas na boca escaldada a rilhar com estes dentes velhos, mas rijos e fiéis, grandes nacos de carne fresca, picada e mal passada nas brasas e, para arrematar, a cerveja de mapira a espumar no pote ao lado. E, uma a uma, para lhe aguçar a curiosidade, doce tormento para uma esposa ansiosa, mostrará à mamã Mutikwa as chitas e os panos multicores que farão inveja à vizinhança. Desta vez fôra mais longe, adquirira para ela colares de pedras resplandescentes e braceletes de contas ditas raras.

Surpresa maior reservara para o filho Josefate que, a esta hora, deve estar às voltas no braseiro, as mãos a não chegarem, a assar carnes e a aprontar os aperitivos para a grande noite. Bom filho, o moço, moiro a trabalhar nos campos ao lado da mãe, a quem protege e salvaguarda de todas as adversidades nas prolongadas ausências do pai. Recorda-se que foi com muita relutância que na época passada o filho anuiu à ideia de deixar o seio materno para se juntar a ele na cidade, em trabalhos para os quais, dizia, se não sentia talhado." Sempre vais aprender algo diferente e não hás-de enterrar o resto da tua vida aqui ao pé de mim", dissera-lhe a mãe, que sobre ele tinha maior ascendência do que o pai. E baba Mutikwa, no regresso à cidade, bateu portas e incomodou os influentes da companhia onde trabalhava: queria um emprego para o filho que está a apodrecer lá na aldeia. E, num dia como outro qualquer, foi chamado ao escritório do capataz; uma despedida em vista?; uma chamada de atenção por alguma falta invo
untária? Foi a tremer de emoção que ouviu o responsável anunciar-lhe que tinha uma vaga aberta para um auxiliar de serviços, e que o filho, se quisesse, poderia ocupar o lugar. Saiu a cantar. Ele, como pai, cumprira parte da sua obrigação, faltava apenas ter com o filho uma conversa amena para desvanecer-lhe essas sombras e receios, essa timidez descabida, para juntos, num futuro que se antevê muito próximo, partilhar essa felicidade que foi a de merecer a confiança dos superiores e ombrearem nas tarefas lá dos serviços. Grande futuro aí os aguardava. Sob a sua protecção guia-lo-ia nos complicados acessos à vida da cidade. Incutir-lhe-ia um ânimo novo, criar-lhe-ia novas aspirações. Sabe de mitos que chegaram à cidade com muito menos do que eles, hoje estão aí feitos gente com casa, extensas machambas e lugares de chefia nas empresas. E ele também, baba Mutikwa, não fosse a idade avançada e o corpo a pedir mais descanço, à escola nocturna teria voltado e a estas horas já teria umas boas classes de estudos na bagagem. Para já, e é com muito orgulho que o afirma, tem uma conta bancária aberta e assina a papelada com o seu próprio punho.

Guarda aquela carta de admissão, passaporte de Josefate para mundos novos e exaltantes, com desvelo e sofreguidão até, no bolso do casaco, junto ao coração, como jóia em cofre-forte.

E noite dentro -a imaginação ainda projecta eventos -, sem contudo esgotarem as conversas, recolheria com a mamã Mutikwa aos aposentos do casal na cabana maior para consumarem aqueles arrebatamentos que, sabia, a ambos consumiam. Josefate, esse, se assim o entendesse, que recolhese à sua palhota com os amigos para se empantorrar de fermentado, que a noite para isso era a apropriada ocasião. Queria-o, contudo, pela manhã, fresco e sóbrio, nos preparativos para receber os que viriam saudá-los e com eles partilharem a paz do dia do natal. Eram respeitáveis famílias de povoados vizinhos, que laços de amizade remontados dos tempos dos bisavôs tornaram parentesco.

Mas eis que um súbito restolhar de vegetação o sobressalta e interrompe-lhe as divagações. Três vultos gigantescos, de má catadura, saltam da espessura do capim das bordas do caminho e interceptam-lhe o passo. Braços de tenaz imobilizam-no.

- Dá-nos o que trazes e poupamos-te a vida- ordena com modos bruscos, a voz cava e desfiada, o que parece caudilhar o grupo. Baba Mutikwa sacode-se com violência e deixa cair as bagagens. Entrado em anos, conserva em si, todavia, muito vigor interior. Num gesto repentino liberta-se do amplexo e despede golpes múltipos, certeiros e eficazes, que surpreendem os assaltantes. É matar ou morrer. Nunca cederia aquele espólio a quem quer que fosse, ainda que isso a vida viesse a custar. Fôra a paga de inenarráveis sacrifícios, de trabalho árduo, a razão de toda uma ausência ao longo daquela época. Que melhor prova de estimação ao seus senão presenteá-los com este tesouro que mãos alheias querem roubar? Que diria a mamã Mutikwa se se apresentasse diante dela com o corpo ensanguentado - poderia ser -, mas de mãos vazias e a boca tardamuda de palavras? Ferida maior no seu orgulho, pior do que a mais humilhante das mortes, é a vergonha de chegar ao lar vencido e despojado do fruto do seu labor, prova concreta de amor pela esposa e pelo filho Josefate.

Impelido por estes pensamentos, novas energias afluem dos recessos desconhecidos do seu próprio ser. E tem lugar naquele chão a mais sangrenta batalha de que há memória em toda a região do grande vale de Buliliwo. É uma dança singular, como o guba dos tempos antigos em que os combatentes que tombavam se ungiam de honras. Os golpes sucedem-se, entremeados de grunhidos e gemidos de sofrimento. Os peitos arfam e os corpos enovelam-se neste bailado de morte, até que baba Mutikwa sente uma pontada a penetrar-lhe o coração. Estremece e vacila de dor. Tudo rodopia numa vertigem que o prostra. Leva a mão ao peito, gesto vão de estancar o sangue que, aos borbotões, escapa pela ferida. Em cada golfada um sopro de vida que se escoa. As energias desvanecem-se e uma treva que se adensa cobre-lhe os olhos. No meio desta uma aura de luz cresce e, com ela, como numa aparição, a imagem de mamã Mutikwa de braços abertos numa corrida ansiosa para o receber. Nesta agonia serena ele aguarda o encontro, mas a figura, fugidia e inconcreta, esbate-se paulatinamente à distãncia e a luz acaba por volatilizar-se no escuro.

Vagidos agudos rasgam a quietude da noite: uma criança acabava de nascer algures.

O céu abre-se e as estrelas testemunham a morte de baba Mutikwa.

* * *
Mamã Mutikwa está angustiada. Faz vigília sentada na esteira, a auscultar passos ou chamamentos entre os ruídos da noite. A imaginação flutua carregando as cores e a gravidade de prováveis incidentes. A brejeirice popular já lhe fizera chegar a notícia da presença do marido na vila. Viram-no no apeadeiro e à entrada de Kalumbo. Não era de crer que desviasse a sua rota para saudar velhos conhecidos ou regalar-se com a frescura de bebidas generosamente oferecidas aos caminhantes nas povoações à beira da estrada.

O escuro atenua-se lá fora; o fogo da lareira está moribundo. E de baba Mutikwa nem um sinal! Ergue-se do chão com um surdo queixume. Nem se incomoda em ir bater à porta da cabana do filho que, a esta hora, deve estar a ressonar, bêbado de fermentado, consumido em abundância durante a noite. Abandona a casa a cortar pelo carreiro das traseiras.

Cabritos esfomeados intensificam balidos de protesto nos currais.

O cão da casa espreguiça-se e uiva longa e lugubremente.

Feita sombra, mamã Mutikwa devassa as moitas e as covas das redondezas, espiolha a espessura das copas das árvores, espreita suspeitos movimentos atrás dos arbustos. E assim desemboca na estrada que liga Kalumbo à vila. No lugar paira o silêncio fúnebre dos cemitérios. O lodo do tereno é uma massa escura e revolvida, como se monstros do além-túmulo ali houvessem ressuscitado e tudo destruissem nesta aparição. Da folhagem, crostas de lama e sangue gotejam, diluídas pelo orvalho da noie. Meio oculto pelo capim na valeta ao lado, um corpo jaz de bôrco, inerte e frio. É o cadáver de baba Mutikwa, ancião ainda há poucas horas palpitantte de vida, boca de humor, generoso e cortês, perecido às mãos de quadrilheiros.

- Mataram o meu homem!... mataram baba Mutikwa!... - grito lancinante, estribilho angustiado que vara o silêncio da madrugada e vaga no ramalhal das plantações. Casais suspendem carícias e escutam. Os galos calam seus cantos.

De distintos carreiros, ou a cortar pelas matas, a vizinhança acorre ao local donde provém o lamento. E encontram mamã Mutikwa de mãos à cabeça, os olhos dilatados de estupefação e sofrimento.

Todos solidarizam-se na dor.

Sob o comando de um ancião, destacam-se grupos, dos quais o primeiro fica a velar pelo corpo e a proceder aos necessários trâmites para o transporte do mesmo a lugar seguro e respeitável; o segundo formará o cortejo de matronas com a função de escoltar a viúva de regresso a casa, acompanhá-la durante o período de luto, assim como providenciar assistência a amigos e parentes que afluirão de lugares distantes para prestar tributos ao falecido. O ancião, ele próprio, caudilha os homens que vão anunciar o óbito ao filho do defunto e apresentar-lhe condolências em nome da comunidade. A meia voz, os homens questionam-se, perguntas que vagam no ar sem resposta: quem poderia ter cometido semelhante barbaridade; em que circunstâncias e porque razão? Lugar pacífico, onde a sobriedade dos costumes e o respeito mútuo entre os habitantes são já valores embutidos na alma de cada um, que se saiba, em Buliliwo nunca se registaram tamanhas calamidades, ressalvadas as muito insignificantes e costumeiras querelas domésticas ou entre vizinhos, que se sanam com grossas bebedeiras nos botequins da vila.

- Isto é obra de gente da cidade- aventa alguém no meio da comitiva. Que não, que são esses imigrantes de má nota, todos cheios de poses, de chapéus à banda e patilhas, que trazem do estrangeiro estes sinistros hábitos; vêm com muito dinheiro, mas ainda roubam o nosso e...matam-nos!

Assim chegam ao largo do lar Mutikwa. Faz-se silêncio. Do interior da cabana de Josefate coa-se o ressonar grave de quem dorme um sono tranquilo. O ancião destaca-se e, com suavidade, bate à porta repetidas vezes sem obter resposta. Instigado pelos demais, força a entrada sem produzir muito ruído. Josefate desperta em sobressalto. Esfrega os olhos, feridos pela luz que penetra pela entrada. Apresenta no rosto frescas marcas de lanhos e inchaços que lhe desfiguram as feições. O chão da cabana parece o de uma venda, dessas que abundam lá na vila: duas malas escancaradas exibem no interior colares e braceletes de brilho ofuscante, chitas de cores berrantes, vestidos de talhe curioso, camisas e um fato de corte moderno para homem. É tudo quanto resta das partilhas.

Josefate ergue-se com movimento pêrros e preguiçosos para indagar sobre os motivos daquela intromissão. Todos fitam-no com surpresa e incredulidade. Do bolso interior do casacão abandonado ao lado do catre espreita a lâmina ensanguentada da naifa com que matara o pai.


Aldino MUIANGA nasceu a 1 de Maio de 1950 em Maputo. Cresceu e viveu nos arrabaldes alagadiços desta cidade, tendo-se deixado contagiar e marcar pela vida agreste dos bairros pobres suburbanos. XITALA-MATI é a sua estreia em livro.