As inexplicáveis razões das armadilhas

Ninguém pode afirmar com certeza quando começou. Nem mesmo eles dois, os personagens desta história. Há quem pense que terminou porque tudo o que começa tende a um final e não deve ser diferente com a amizade, sentimento que muda com o passar dos anos, com a realidade da vida, a maturidade, as implicações do cotidiano. Há quem pense deste modo. E, sendo assim, acabou, acabou, pronto, não se fala mais nisso. Há também quem tenha opinião diferente. São tantos os casos de amizade que duram toda uma vida e mais se fortalecem e solidificam, apesar da rotina do dia-a-dia, apesar até mesmo de grandes separações, sejam espaciais ou temporais.

A verdade é que ninguém jamais encontrou explicação ou causa. Por não ter procurado, no caso de vizinhos, parentes, etc. ou por não ter encontrado, como eles mesmos tentaram sem sucesso.

O fato é que sendo amigos inseparáveis e tendo se conhecido no primeiro dia de aula da terceira série do grupo escolar, assim foram acompanhando o passar do tempo tão amigos e tão irmãos que na casa de um sempre havia lugar para o outro, como também peças de roupas, livros, discos, jogos, estas coisas e a mãe de cada um, às vezes, até esquecia que só um deles era seu e elogiava ou repreendia sem distinção.

Juntos, passaram por muitas experiências: a ida para o ginásio, o alistamento militar, as primeiras namoradas, a conclusão do segundo grau, o vestibular. Neste ponto, uma separação: um quis ser médico, outro, economista. Objetivos diferentes proporcionaram novos amigos, interesses diversos, não o afastamento, pois os pais, na defesa de seus próprios interesses, juntaram os filhos estudantes em um mesmo apartamento onde ora a mãe de um, ora a mãe do outro se revezava no papel de mãe de todos.

Um dia deixou de ser assim. E não foi porque colaram grau e começaram a exercer suas profissões com responsabilidade e competência, nem porque se casaram uma vez que as moças que escolherem - ou por quem foram escolhidos - apesar de se conhecerem através deles, muito gostaram uma da outra; nem porque tenham mudado de cidade; moravam em prédios próximos e até hoje, freqüentemente vêm se encontrando, pois uma família que cresce sempre oferece motivos para reunir parentes e amigos. Aqueles estudantes que durante alguns anos compartilharam o apartamento e as mães - eventualmente os pais - originaram cinco famílias que por certo tempo estavam sempre somando mais um.

Então, o que houve? Quando? Um dia, um deles não sentiu a menor vontade de comentar com o outro um acontecimento qualquer do cotidiano. Outra vez, esse nem comunicou que participaria de um Congresso Internacional nos Estados Unidos e aquele, quando soube, foi no dia do embarque. Estranho isso, sua esposa sabia e nem disse nada porque pensou... Houve a ocasião em que o economista ganhou daquele whisky tão apreciado pelos dois e nem pensou em convidar o médico para apreciá-lo juntos e na noite de sábado quando sua mulher, naturalmente, apresentou a garrafa em uma daquelas reuniões antes tão comuns e prazerosas em que os dois casais se reuniam apenas para jogar conversa fora, se sentiu tão profundamente irritado que foi o primeiro alarme. Deste dia em diante, passou a se questionar e a policiar seu comportamento em relação ao amigo, o que era bastante desagradável.

À medida que os dias se transformavam em semanas e estas em meses, era cada vez mais difícil um esconder do outro que já não se sentiam felizes juntos, que se irritavam mutuamente, que os interesses de um eram motivos de tédio para o outro. O que conseguiram ocultar durante algum tempo foi a angústia e a perplexidade que iam afligindo os dois corações, bem como tentavam não ver o ar interrogativo transparente nas pessoas que faziam parte do universo comum.

Chegou o dia em que a angústia já era sofrimento manifesto aumentado pela lembrança de outros tempos. Foi quando o médico procurou o economista para abrirem os corações. Impossível. Não mais havia entendimento entre eles, já não usavam a mesma linguagem e o que sobrou da entrevista foi a certeza de que algo que não sabiam o quê, se perdera em um tempo impenetrável.

Mais tarde, o economista disse ter encontrado um apartamento melhor em outro bairro. A família protestou mas nada pôde fazer e “assim se passaram dez anos”, como diz o bolero. De vez em quando se encontram pois as famílias que se uniram por causa da amizade de dois garotos que se conheceram no primeiro dia de aula na terceira série no grupo escolar não têm qualquer motivo para não continuarem unidas.

Quando o médico e o economista se encontram, são gentis e cordiais, falam do tempo, da situação mundial, do trabalho, dos filhos, nunca do que passou. Sempre quando voltam a seus lares, recordam este ou aquele acontecimento de antes, algum projeto vitorioso ou frustrado, algum sonho realizado ou perdido e, por certo tempo, seus corações escurecem.


VALDINETE DE MOURA LIMA é pernambucana de Vitória de Santo Antão, professora universitária, tem vários contos ainda não publicados. 3o. lugar no III concurso de Contos José Cândido de Carvalho, promovido pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Campos dos Goitacazes, com o conto Uma História de Amor, cujo título foi posteriormente mudado para Noturnos e Desencontros - RJ; Menção Honrosa no 22o. Concurso Jeová Bittencourt, Academia de Artes e Letras de Araguari, MG; conto Setembros; 3o. no Prêmio Literário Paul Harris, promovido pelo Rotary Club da cidade de Faro, Portugal. Conto Futuro no Olho da Menina.