Abastança

Hoje Carabina vai se refestelar. O latão está transbordando neste fim de tarde. Não sabe por quê. Não carece. Lembra de nunca ter visto coisa parecida. Latão redondo, inchado, metal fundido. Circunferência recheada de restos. Alegria de doido. Os olhos enchem de lágrima e deslumbramento. Da boca escorre saliva. O beiço tumefacto, penso, alegórico. Súbito, virou rei. Se prepara a fim de forrar o estômago com o que não prestou para os outros. Tanta coisa não presta para os outros.

Ocupa a cidade de muitas outras gentes. O mesmo cenário. Existe uma imensidão de céu acima dele. Um azul gigante estampado sobre sua cabeça. Não importa. Acaba de ganhar a boa.

Se conhecesse mãe, talvez ela gritasse " Vai com calma, diabo! Desse jeito, acaba gordo que nem um bucho." Com certeza, positivamente que ela gritava. Barrigudo feito rico. "Engordo não", responderia depois de limpar a boca com as costas da mão. Agora ele ri na companhia da mãe impossível. Mãe abstrata.

Embalagens que parecem novas. Intactas, sagradas, somente um pouco abertas. Salgadinhos, sacos coloridos. Nomes estrangeiros, complexos. Carabina não entende nada, desconhece. Jura que não compreende, palavra. Complicação bastante forte. Mas aprecia demais e devora bem o restolho. Engole, ávido. Mastigar é luxo que não se permite. A fome pede urgência.

Alguém freqüentou ali, antes. Numa mesa ou no banco de um automóvel. Jogou fora. Provavelmente não tinha apetite, foi só força do hábito. Talvez o gosto não agradou. Grossa besteira, esse negócio de gosto. Carabina não liga para paladar. Nem sente. É meio bicho. Até rosna, grunhe e outras deformidades. Muitas outras deformidades.

As mão lambuzadas, engorduradas. Casca de sujeira. O corpo inteiro imundo e um sorriso feliz no rosto. Sorriso do estômago. Vem de dentro das entranhas, o sorriso. Do fundo. Carabina satisfeito. Nunca uma festa deste tamanho.

O passado não existe. O futuro, então, quem quer saber? Há apenas o momento presente. Apertar o alimento na mão. Senti-lo perfurar, invadir, violar a pele. Desce bruscamente pela garganta, até dói. Falta de costume. Vontade de precipitar tudo de uma vez só goela abaixo. Pelos ouvidos, pelo nariz, todos os poros da pele. Preencher o espação vazio. Espaço antigo, o da fome. Vício gostoso.

Boca cheia, esfarelando diferentes texturas e sabores que se misturam desconexos. Infinidade de aromas que inebriam, tonteiam. Migalhas, banquete. O mundo não deve continuar depois dali. Carabina faz esforço para o tempo parar. Mas logo esquece. Boca cheia.

A partir de certo ponto, começa a ser mais criterioso. Já abrandou o ímpeto violento. Seleciona só o que se conserva mais limpo. Abandona o que é intragável. Batidinhas com a palma da mão e assopros eliminam as formigas. Manuseia com zelo a comida. Acha graça de sua rigidez. Pensa que está se tornando demasiado exigente. Bobagem dele.

Nem repartir precisa. Ninguém ao redor. Um achado. Tesouro, preciosidade. Até mesmo os cachorros desapareceram. Que estrela danada de grande tem Carabina, até os cães sumiram! Que sorte deu Carabina! Ganhou o dia. É enorme, o lixo. Uma enormidade.

MAURICIO DUARTE DOS SANTOS é jornalista, poeta e escritor. Nasceu na cidade de São Paulo, no dia 08 de setembro de 1981. Atualmente trabalha na Livraria Cultura, em São Paulo. Foi premiado em alguns concursos literários em São Paulo e Curitiba.