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A cozinha de Shakespeare
- Você foi à Londres e trouxe uma única foto.
- Sim, uma única, mas total. Depois dela não haverá outra. O lugar é
secreto, jamais foi mencionado. Não sei como consegui entrar.
- Conheço uma amiga que pensa que já esteve lá na trilha de um sonho.
Havia bebido uma quantidade muito específica de café. Você sabe, há uma
quantidade exata, nem mais nem menos. A diferença de um milímetro e já
não se pode entrar.
- Sei, você já me contou esta história mas não adianta nenhum
subterfúgio. Você tem a foto que queria em suas antenas.
- Houve mesmo, antes, o tal encontro anual, ou foi depois de você
conseguir tirar a foto do interior do lugar?
- Sim, foi depois. Lá se trocam, a cada ano, "inflormações", icnografia
sobre objetos desconhecidos. Trazemos para observação mínimos pedaços de
coisas que não podem ser vistas a não ser por trechos, regiões. Eu
participei como pude. Antes da reunião anual eu havia ido àquele lugar.
Por trás de uma lanchonete estranhíssima, comercial no aspecto, onde
tudo convida ao lanche rápido, há um castelo, cinqüenta metros de
distância, no máximo. Castelo fechado branco. Castelo-fábrica, saindo
fumaça pelas torres. Muito evidente, não sei como até hoje é um lugar
escondido. Não faz sentido já que está à mostra, um armazém elisabetano
com funcionamento gótico.
- Talvez até por isso mesmo.
- Cobram inclusive ingressos para visitação das outras áreas,
perfeitamente liberadas mas, lógico, não é uma fábrica de salsichas
este castelo tradicionalmente povoado de fantasmas.
- Então o que é?
- Deixe-me sentar aqui junto à janela: a cidade parece que vai fugir
imediatamente com todas as suas luzes.
- Quanto mais iluminada mais rápida será a fuga.
- Tudo preparado há séculos, não?
- Olhe, quer que eu te diga uma coisa? Nada está confirmado, programado,
ninguém na verdade sabe de fato o que vem acontecendo desde que começou
o universo. Talvez com esta foto você nos traga uma pista.
- Como eu te disse, esta foto foi tirada muito de viés, quase que por
acidente, poderiam notar minha presença. Não pude demorar no local mais
do que alguns segundos. Não sei como deixaram a porta aberta. Eu me
recusara a ser acompanhado por qualquer pessoa. Minha intenção era ir
completamente sozinho ao lugar, sozinho com a percepção corpórea. Não
tinha mapa, apenas a indicação de um silvado. O condado fica a poucas
milhas de Londres. Aluguei um carro prateado e segui diretamente até lá,
sem nenhum desvio. A linha reta.
- Não quero circunlóquios. Vá também direto ao ponto. O que você viu?
- Vi o que eles chamam o caldeirão, onde os corpos são recompostos,
retratados, retrabalhados.
- Uma espécie de ossoário?
- Muito mais do que isso. Lá os corpos são banhados, retransformados. Há
um tablado de madeira, corrimões ao redor da arena onde os restos
fumegam. Não há mal cheiro. Foi a primeira coisa que achei bem estranha.
E nenhuma sofisticação de aparelhos, nenhuma ambiência high-tech, tudo
como pouco depois da Idade Média, tosco, cordas muito grossas, ganchos
de ferro suspensos se movendo.
- Como um calabouço, uma câmara de torturas daqueles tempos?
- Não. Como um teatro, as galerias ao redor, mas de forma alguma um
espaço muito amplo. Mas suficiente para a ação: The Globe. E por toda
parte uma verdadeira encenação para nada. Eu vi os cadáveres sendo
mergulhados nos potes e dezenas de olhos azuis nadando em retortas,
muito vivos como peixes num aquário, as peles empilhadas com esmero
sobre mesas imensas. E por toda a galeria onde eu caminhava um tácito
arsenal de limpeza. Vassouras, baldes, panos de chão. Uma faxina
constante. Mas não vi ninguém.
- Como se tivesse havido um lapso na segurança...
- Ou quisessem me deixar ver tudo de uma só vez.
- Não havia câmeras, monitores de vídeo, nada?
- Nada, só enormes vassouras e baldes com água, abandonados. Água
abandonada. Hora de almoço.
- Então você acha que realmente o esperavam, que deixaram que você
deslizasse furtivamente pelas galerias porque havia necessidade de que
você trouxesse a foto para cá?
- Claro, mas antes ela foi mostrada na reunião anual.
- Houve interesse
- Veja bem, eu não disse em nenhum instante a origem desta foto, não
expliquei nada. Todos lá ficaram na mesma. Ficou claro que era um trecho
de uma forma maior, muito maior. Não consegui fotografar todo o espaço.
E isso foi uma tônica durante o encontro. Só foram apresentados trechos,
recantos, parcelas, pedaços e ninguém obteve a junção desses fragmentos
num todo e como problema maior para que isso fosse atingido os
participantes se recusavam a divulgar a origem de suas fotos ou
materiais.
- Mas, venha cá, vocês só trocaram figurinhas?
- Não! Houve muitos vestígios de esculturas maiores de todos os
materiais inéditos que vêm sendo sintetizados em muitas partes do mundo,
lâminas com tecidos de novas espécies vegetais, animais e híbridas
recém-encontradas, pólens de flores gigantescas, maxilares
fosforescentes, mas não trouxeram nada que você encaixasse, conseguisse
completar. Como te disse, somente pedaços.
- Quer dizer que mais uma vez vocês se encontraram no seu congresso
anual para se confundirem, para não chegarem a nenhum acordo, a nenhuma
espécie de síntese, união das peças do grande quebra-cabeças?
- Sim, essa prática foi levada ao paroxismo. Um verdadeiro caos de
formas ao acaso e mais uma vez a linguagem sonegada.
- Definitivamente?
- Não acredito. Há muita gente, como eu, interessada numa solução. O que
está acontecendo não tem mais qualquer sentido.
- Uma coisa que nunca entendi é porque vocês não param de se despistar,
de esconder a informação essencial uns dos outros.
- Muito simples, meu caro, é uma técnica para despistar um grupo muito
maior de desconhecidos que espiona nossos encontros e que tenta captar
de todos os modos o assunto central sobre o qual estamos a tratar desde
que começou o século.
- Então antes do século XX não havia desses encontros?
- Não, a busca da forma, da geometria, da coisa, do ser desconhecido
somente começou em 1901.
- Aonde foi o primeiro encontro?
- Você pode até rir com sarcasmo, mas foi no Cosmo Velho, no Rio de
Janeiro. Desde então nós nos reunimos todos os anos em determinados
lugares da Terra, trazendo em inúmeros formatos, geralmente sobre o
papel vegetal, imagens de lugares, coisas e seres desconhecidos. Nós
desfrutamos ali do escambo de formas desconhecidas. Pois nossa intenção
desde sempre é a transformação de qualquer fenômeno em arte. Qualquer
ato, o menor, o mais oculto, imantado por uma intenção estética, pouco à
pouco transformará a tão decantada realidade em algo inteiramente
inesperado. Certas coisas, todavia, ainda não são possíveis. Mas um dia,
numa certa manhã, todos acordarão num outro universo. Este o nosso
projeto.
- Não é uma contradição já que vocês não chegam a nenhum acordo?
- Mas é exatamente o que todos querem, a dispersão total.
- Menos você, ao que eu acrescento: será mesmo verdade? Como posso
acreditar que você tenha estado mesmo lá?
- Não estou mais jovem? As rugas menores já desapareceram.
Olhe, na sua idade tanto faz.
- Sim, mas esses encontros têm a vantagem de proporcionar um
rejuvenescimento.
- Tantrismo ou além?
- Não, mera troca de reflexos de objetos desconhecidos, de reprodução de
coisas desconhecidas. O esplendor que flui na descoberta de novos
símbolos. Nos reunirmos num jardim suspenso e maravilhoso, o qual, por
sinal, se localiza a poucas milhas do castelo de Sussex. Esta foto que
você tem nas suas antenas foi ampliada num vasto holograma sobre a relva
onde as virgens e os efebos mergulharam. Foi uma estupefação. Esta foto
transformou-se num lago de imagens.
- Um holograma líquido, fascinante!
- Misturado com luar absoluto. Era noite de lua cheia. Um holograma
perfeito que - muitos suspeitam - compreenderam ser a faixa tangencial
para a síntese que a todos apavora. Houve uma série de reuniões após a
demonstração e fui chamado literalmente às falas. Fizeram-me perguntas
as quais deveria esquecer imediatamente depois de serem feitas.
- Exatamente agora vou sentindo que deslizamos vertiginosamente,
aromaticamente do assunto que nos interessa.
- Por que você ainda não abriu o envelope? Por que você não quer ver a
foto? Depois disso você não perguntará mais nada.
- Antes de abrir este envelope conte-me o que você mais viu?
- Não vi mais nada além de pedaços aparentemente carbonizados, mas o que
de fato estava sendo feito era a mudança de pele, estavam sendo
recomposicionados. Aquele é o centro de regeneração dos corpos da
família real britânica. Aquele é o lugar da genética secreta.
- Sem aparelhos sofisticados?
- Não me pergunte sobre isso pois não tenho a informação necessária para
esclarecer assunto tão complicado. O que posso confirmar desde logo é
que ali recebem os corpos da aristocracia britânica há séculos, os
cadáveres preciosos da Corte. E isso não se sabia até agora. Ali é um
outro tipo de carnificina. A carnificina real é para o mundo exterior.
Ali - como posso dizer? - os mortos especiais são trazidos de volta à
vida.
- E os novos rebentos são fabricados.
-Certo! Não há cópula para que elas, as delicadas crianças, renasçam.
São aproveitadas dos velhos cadáveres.
- O oculto armazém da cegonha?
- Sim, por detrás de uma moderna lanchonete de comida industrializada.
- O que é aterrador é que os restos não aproveitados, os restos, por
assim dizer, mortais, são devolvidos em forma de hambúrgueres aos
turistas não avisados, os dejetos da família real britânica são
devolvidos ao estômago dos turistas plebeus que trafegam pela
auto-estrada em busca de castelos mal-assombrados. É isso?
- Pode ser. No entanto, eu acredito que também não seja assim. Acho que
a própria presença da lanchonete possa ser de alguma maneira uma
encenação para que pensemos precisamente tal coisa. Acho que a comida
que é servida na lanchonete da beira da estrada não tem mesmo nada a ver
com os cadáveres dos reis, das rainhas, dos príncipes, condes, duques e
condessas. O indício é só para provocar esse pavor, esse nojo que você
está sentindo e que eu senti no momento em que recusei um sanduíche de
presunto e algumas rodelas de salame.
- Então?
- Pura armação. Na verdade, o castelo fumegante cumpre a sua tarefa em
toda a sua brancura no alto da colina. Reciclagem. Simples reciclagem.
Material genético importantíssimo não pode servir para a alimentação de
gente fatalmente humana. Talvez eles soubessem que alguém como eu
pudesse perceber o que acontecia ali e inventaram também esse simulacro.
- Basta! Vou abrir o envelope (...) Mas isso não prova nada! Isso são
sombras, detalhes de uma forma muito mais ampla.
- Fotografei o centro da arena, as formas futuras onde se prepara um
rei. Isto não é importante? Um rei que não surgirá da fecundação humana.
- Um rei, um dominador, preparado na proveta.
- Mas sem agentes humanos, sem sêmen e sem óvulo, fora da natureza,
completamente preparado com outras substâncias, além da própria genética
conhecida, ausente do genoma. Engendrado numa espécie de curral,
armazém, celeiro, teatro, enorme cozinha. Um novo ser para as futuras
gerações, bem para o futuro, não será nem o bisneto do príncipe Charles,
surgirá mais além, e será coroado. Enquanto que nós procuramos o
salvador geral eles procuram engendrar, o quanto antes, o seu oposto.
- Você quer dizer que todos eles, todos os membros da família real
britânica foram sintetizados, preparados, condimentados dessa forma
nessa cozinha de gigantes, medieval-automática?
- Mas é óbvio! Tudo tem sido, e já há séculos, empulhação. Resguardada
nos escaninhos. Somente esta foto demonstra. E vou mais adiante e te
afirmo que toda a aristocracia tem sido preparada assim, não só a
britânica mas todas as outras também.
- Vejo claramente, na base da foto, o perfil inclinado de um inca. Mas
os incas perderam sua potência.
- Você está certo
disso?
CARLOS EMÍLIO (Barreto)
CORRÊA LIMA é romancista, contista, poeta e ensaísta Mestre em
Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará. Publicou os
romances A Cachoeira das Eras - A Coluna de Clara Sarabanda (1979),
Além, Jericoacoara - O Observador do Litoral (1962) e Pedaços da
História Mais Longe (1997) e o livro de contos Ofos (1984). Publicou
também o estudo Virgílio Várzea: Os olhos de paisagem do Cineasta do
Parnaso( 2002). É editor da revista literária Arraia Pajéurbe. Vive e
escreve em Fortaleza, Ceará
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